Entradas marcadas como ‘Amizade’

Novembro 11, 2009

Culinária que se faz em casa para ninguém

Tenho uma estaca cravada na consciência desde o tempo da infância. O cara era meio abobado, só que era uma pessoa boa. Eu estava com fome e ele me alcançou um saco com salgadinhos. Deixei a casa do meu amigo e meti um salgadinho na boca. Estava velho.
Um a um, como se fosse João e Maria [...]

Maio 5, 2009

Lá-Lá-zarus

A tarde poderia baixar atrás de um café, o frio amassando as mãos uma contra a outra, aquela fumacinha saindo da boca e da xícara. Só que nessas horas de não beber cerveja nem te encontro por aqui.
— Bunecro!
Um dia, cada um vai embora, toma um rumo.
— Bora lá?
Agora, para passar frio com uma long-neck [...]

Março 7, 2009

“Atire em mim antes que eu te mate”

Foi em um bar sujo em uma rua fedorenta que aqueles jovens se agruparam, protegendo-se da noite quente. O odor de fossa ficou mais forte quando virou contraste para os celulares e os tênis de grife dos alternativos e das groupies. Chegaram alguns carros para descarregar instrumentos e equipamentos. Carros de pais e mães guiados [...]

Fevereiro 16, 2009

As coisas que nos soterram

Sem suportar mais ver aquelas pegadas feitas com areia, pensei em cometer o crime. Ia comprar veneno. Outra alternativa era colocar um pano com agulhas no caminho para feri-lo. Tudo com muita dor e sangue. Essas eram as condições.
Pela manhã, soube do fim. Ela chegou por um comunicador instantâneo dizendo que havia terminado, depois de cinco anos. Disse [...]

Novembro 30, 2008

Pastéis

Foram trinta anos movido a dois ou três maços de cigarro diários. Lembro da fumaça azul de Minister deixando o nariz aos poucos. Parecia bom aquilo. O que não parecia bom era a gordura da carne. Essa foram sessenta anos de digestão a cada fim de semana. Agora ele sente uma certa resignação diante do [...]

Novembro 11, 2008

Quando perto da bola oito

A tacada certeira, a larga distância, enfiei a bola oito pela caçapa abaixo, lentamente, com estilo, classe. Quatro a três sobre meu adversário Adilson, no total de sete confrontos com uma média de quatro a cinco partidas cada um. No início, as vitórias se davam porque o derrotado metia demais a bola branca no buraco, espancava alguma [...]

Outubro 29, 2008

Como se andasse sobre o fio da navalha

Parou de chover como se anjos tombassem do céu com os miolos estourados por uma doze. Entre reverberações de uma residência saqueada enquanto a mulher acompanhava o resgate do marido enfiado em um poço em Minas Gerais, de outra que teve a casa invadida pelas águas no interior gaúcho, de um cavalo que era espancado [...]

Setembro 17, 2008

Instantes nas páginas, em estantes

Em maio de 1985 havia à minha frente Antoine de Saint-Exupéry. Eu tinha nove anos e minha mãe me dera de presente O pequeno príncipe. Não só para mim, mas também para o meu irmão. A capa está arrebentada, dá pra ver que o livro tem idade. Já a dedicatória permanece viva, a tinta da esferográfica [...]

Setembro 3, 2008

O sentido do vento

O minuano pode ser quente? Le bise é frio, o mistral é quente, o surazo é frio. O que sopra agora, tão cálido quanto a batida de um coração, então?
Suei pela testa uma gota de gel derretido em um dia abafado de um sábado perdido no inverno de sete pessoas digerindo carne e cerveja. Como quem chupa o dedo [...]

Agosto 7, 2008

Datas encobertas pela areia da ampulheta

Quando abro os olhos, sinto a dor de Sansão sendo cegado com uma tocha e o incômodo que o Homem-Areia tem de agüentar cada vez que pisca. Da mesma forma que Sansão lutou com anões armados de redes e lanças e derrubou duas colunas e que o Homem-Areia enfrentou o Homem-Aranha, levantei durante um mês da cama [...]