Novembro 6, 2009...1:28 am

Não-ficção 2

Ir aos comentários

LOCAL: REDAÇÃO

— Ciclana?

— Sim?

— Tudo bem? Tô ligando sobre o material aquele do santo. É uma mão dele que vem da Itália para ser exposta, é isso?

— Não é só a  mão. É desde o cotovelo.

— Ah. O antebraço.

— É. Foi a única parte que sobrou do santo.

— Ah, é?

— Sim. Mas está bem inteira. Parece até que foi cortada ontem!

***

LOCAL: REDAÇÃO

Ao telefone, estreia no Obituário.

— A sua mãe tinha marido? Quer dizer, ela era casada?

— Sim, foi casada. Ele já morreu. Mas eles tinham se separado.

— Ela se separou antes de ele morrer, né?

— Sim.

***

LOCAL: REDAÇÃO

Telefonema 1

A assessora atende lá do outro lado, em Brasília.

— Oi, aqui é de Porto Alegre. Falei antes com a tua colega, a Fulana. Ela está?

— Então. Ela saiu para almoçar.

— A que horas ela saiu?

— Então. Era uma e quinze.

— Ela demora para voltar?

— Então, demora uma hora.

— Uma hora? Bah, já são duas e doze, ela deve estar chegando, né?

— Então. Uma hora a partir de agora.

Telefonema 2

— Olá, Fulana?

— Sim.

— Oi, é o André, de Porto Alegre. Conseguiste aquilo que te pedi?

— Ãh… ah…

— Das ambulâncias e tal…

— Ah, sim. Peraí… é que…

— ?

— Então, não consegui ainda, não.

— Tem alguém com quem eu possa falar que saiba disso?

— Então. Pois é, tem sim. Ele estava aqui na minha frente agora mesmo. Mas saiu.

— Saiu? Mas está aí ainda? Não tem como chamá-lo?

— Então. Ele deu uma saída, não sei se vou conseguir falar com ele.

— Putz. Bah, mas ele não está  por perto? Não tem um jeito de falar com ele?

— Então. Eu vou tentar, tá? Mas não sei se consigo.

***

LOCAL: RUAS DO BAIRRO JARDIM LINDOIA, ZONA NORTE DE PORTO ALEGRE

AS PAUTAS: OBRAS DO DEP NA AVENIDA PANAMERICANA E MASCOTES DE MORADORES

— O senhor sabe da obra do DEP?

— Obra do DEP? Não.

— Vai passar ali pela Panamericana, aí vai entrar pela Manágua, bem na frente do seu prédio, e depois seguir pela Costa Rica. Vão abrir tudo. Seis meses de obra.

— Seis meses? Bah. Já estamos com uma obra aqui no prédio faz um ano. Mais essa, não vai fazer diferença.

— Ah, é? Bom, qual o seu nome?

— Meu nome? Por que tu queres o meu nome?

— Já falei com vários moradores. Todos me deram o nome. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Putz. Tá bem. Beltrano.

— Beltrano. E o sobrenome?

— Sobrenome também? Pô, aí fica difícil.

— Por que difícil? Já falei com vários moradores. Todos me deram o sobrenome. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Bah, sobrenome… bom, tá bem. Silva.

— Idade?

— Minha idade? Para quê?

— Porque eu já falei com vários moradores. Todos me deram a idade. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Não sei, isso de idade, acho que não precisava botar. Eu tenho 58.

— E a sua profissão?

— Ah, mas aí tu queres me matar, né? Profissão não, né.

— Por que não? Já falei com vários moradores. Todos me disseram a profissão deles. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Não queria que isso aparecesse, sabe, tá um rolo aqui no prédio, não consigo nem pensar nisso direito…

— Seu Beltrano, todos os moradores que deram depoimento sobre a obra me informaram a profissão.

— Eu não queria, sabe, tá um rolo isso aqui. Mas então bota aí que eu sou aposentado.

— Certo. Ãhm.. Olha só. Posso agora fazer uma foto sua?

— Quê? Foto? Tá louco. De jeito nenhum.

— Por que não? Já falei com vários moradores. Todos me deixaram fazer foto. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Não, mesmo. Não quero. Tá bem?

— Bah, sério? Putz, achei seu depoimento interessante, essa história de já ter uma obra há um ano no prédio. Tinha que ter uma foto para ilustrar a matéria. Os outros moradores…

— É, mas não quero não, tá bem?

Aí eu olhei para o cão do cara, que tinha surgido da garagem.

— Posso fazer então uma foto do seu cão?

— QUÊ??? COMO ASSIM?

5 Comentários


Deixe uma resposta