Depois de dois anos preso por causa de um rolo com o pai de lorde Alfred Douglas, acusado de sodomia, o escritor irlandês termina seu De profundis com um convite ao amante para que se encontrem e diz haver amor, ainda. As últimas palavras são “seu amigo afetuoso, Oscar Wilde”.
Ele é um trouxa ou conseguiu coar tudo para manter de fora a desilusão e sustentar o que restava entre ambos? Envelhecido, com a saúde arrasada pelos anos de prisão e trabalhos forçados, o dândi morreu em Paris.
Wilde fala que as prisões são piores que seus prisioneiros. Estive uma vez no interior do Presídio Central, vi de perto a ala em que não há mais celas, somente cavernas obscuras, vento gelado no inverno entrando pelas janelas destruídas e água da chuva sendo borrifada pelos corredores fedendo a maconha, suor e sujeira. Concordo com o escritor, mas só porque nunca fui sequestrado, ameaçado de morte ou tive algum familiar nessa situação. Caso contrário, desejaria que apodrecesse no lodo da morte em vida do Central.
Tem uma outra prisão em nós. É a que nos defende, como casas cercadas de muros, grades, cães raivosos, cercas elétricas, arames farpados, cacos de vidro e alarmes múltiplos e trancas cheias de segredos. Estar preso às vezes traz segurança. É fincado nessa propriedade-penitenciária que às vezes a gente se atrela tanto às coisas. E isso serve também para as pessoas para as quais entregamos as chaves e abrimos os cadeados.
É como se a gente achasse que é um bem para outro, e vice-versa. Só que o outro pode ser lorde Alfred Douglas. Ou Oscar Wilde. Ou um pouco de cada. Porque, no fim, ninguém está errado. Somente estamos olhando por detrás de muros, grades, cães raivosos, cercas elétricas, arames farpados, cacos de vidro e alarmes múltiplos e trancas cheias de segredos. E sentindo medo. Muito medo.



