Felicidade só é real quando compartilhada. Christopher McCandless escreveu isso no momento em que sentiu a maior solidão da sua vida. Ele estava envenenado, pronto para morrer isolado em um ônibus caindo aos pedaços no Alasca. Deu o último suspiro um dia depois do meu aniversário em 1992.
Um pensamento me fez voltar atrás, e o rio não estava cheio demais para atravessar. Era o último ano do Segundo Grau e passei minha prova de matemática para meu colega da frente. Eu precisava tirar dez. Consegui. Aliás, ele conseguiu. Não fiquei preso naquela ilha de gelo em Stampede Trail. Cruzei para o outro lado e caminhei. Normalmente, sozinho.
Gostaria de ficar no meio de um deserto com uma comunidade hippie que vive em trailers no oeste americano e montar uma barraquinha com livros. Os motoristas que passam pela rodovia parariam para comprar Jack London ou Henry Thoreau. E aí eu ia gostar da menina com o violão, que me olharia com olhos singelos de paixão e de admiração, e ela diria, encabulada: “Eu gosto de ler”. E compartilharíamos as histórias dos livros.
Eis que nem estou no deserto. Não faz calor, faz frio. Um frio que deixo lá fora porque não baixo a persiana e acostumei a ver o dia nascer quando acordo no meio das horas entre meia-noite e cinco para mijar. A janela fica gigantesca com as cores mornas e mortas das profundezas da madrugada. Falo comigo mesmo quando faço um chá, abro uma caixa de bombons, assisto a um DVD.
E no fim mais um dia passa e o que há é essa pequena felicidade da liberdade solitária que dura algumas horas e muitas vezes vale muito mais do que estar no meio da sociedade. Society, society, society, clamava McCandless.
Suspiro às 5h50min, quando chega o carro que me busca. Tem vezes que não quero ver pessoa alguma. No máximo um urso, um alce ou pássaros do frio.
Mas disso ninguém sabe.
Isso não é compartilhado.




1 Comentário
Junho 23, 2009 às 8:04 pm
Entendo perfeitamente. E compartilho.