Às vezes olho para as pessoas e vejo Dick e Perry trucidando a família Clutter no distante Kansas de 1959. E no meio de uma festa com centenas de pessoas todas são Dick e Perry. Para sobreviver no meio daquela música que reflete 1959 é preciso uma certa dose de marguerita e alguns copos de cerveja.
Você chegou em casa tonta e perdemos tempo.
Os Dicks e Perrys passam pelo corredor com a intenção de tocar nos nossos ombros e fazer sacudir a bebida. Eu encontro Nancys e Herbs e todos os outros que também são vítimas de Dicks e Perrys e ali discutimos como escapar. A maior parte do tempo as Nancys e os Herbs discutem como escapar dos Dicks e Perrys.
E nessa discussão interminável me perco de você e perdemos tempo.
Tão logo chegue o fim do mês estarei um tanto longe, em fuga de Dick, em fuga de Perry. Por causa do Airbus pensei em tomar um ônibus, mas seriam 18 horas de viagem. Isso é uma travessia semelhante à que fizeram Dick e Perry para deixar Holcomb, a cidade onde deixaram seu legado de carnificina.
E lá passarei cinco dias e perderemos tempo.
E no fim só fujo. Fujo de Dick, fujo de Perry. E quando abro teu presente sinto aquele esmagamento do inesperado. E aí eu tenho que fugir para a rua e correr o risco de encontrar quem? Dick e Perry.
Só que na fuga não encontro ninguém, somente um presente para você e um pouco de tempo perdido.
Porque no fundo essa corrida toda contra o tempo parece que tem a intenção de justamente fazer com que o relógio corra.
Enquanto fujo de Dick e Perry, me parece que você está ficando para trás também, como se fossem os ponteiros indicando os segundos do passado, de 1959, por exemplo. Mesmo que eu busque você.
E encontre.
Em uma casa de campo de Holcomb, no Kansas, em 1959.




1 Comentário
Junho 16, 2009 às 1:15 pm
O Brasil está cheio de Dick e Perrys. No congresso, na diretoria de grandes empresas, no guardador de vagas da grande avenida…
Todos nós corremos o risco de ser assassinados a sangue frio, a qualquer momento, e sem razão plausível.