Cada vez que giro a chave observo a quilometragem e tenho certeza de que marca mais do que da última vez. O carro não tem alarme e todo mundo no prédio tem o controle do portão automático. Ou então é aquela minha roupa que fica pendurada há meses sobre um cabideiro de chão.
As explicações são de casos aparentemente sem ligação. Sinto uma canseira diária que normalmente acaba em um cochilo sem querer ou por querer. Às vezes imagino que a roupa escura mudou de lugar depois que acordei.
O ápice foi a gripe estranha que não parecia gripe. Doíam as juntas, era um cansaço de esforço físico. Enquanto isso, o nariz estava seco, não escorria. Quando começaram as tosses, as dores nos joelhos e braços já haviam passado.
Algumas pessoas que me atemorizam desapareceram. Especialmente o consumidor de crack ouvido em uma pauta por aí e que descobriu onde eu moro. Dia desses, encontrei-o semidestruído, jogado no chão. Tinha levado uma surra, certamente. Era um dia em que minhas costas doíam inexplicavelmente e meus braços estavam com a musculatura latejante.
Tenho dormido sempre com a janela do quarto descoberta. Olho para o céu chumbo da noite recém-surgida. Repentinamente acordo e é como se um bafo quente houvesse embaçado o vidro. Mas é só impressão. Os olhos sem óculos visualizam as luzes amarelas opacas da rua que dão impressão de pintura de Van Gogh. Há frio que parece de quarto que ficou a noite inteira de janela aberta.
Nessas horas observo a roupa dobrada sobre o cabideiro. Sempre em uma posição diferente. Sempre esperando.




2 Comentários
Junho 10, 2009 às 3:43 am
Cheer up, bonecro!!
Junho 11, 2009 às 2:51 am
Às vezes, quando leio um texto teu como esse, sinto vontade que o tempo voltasse pra trás, e eu pudesse de novo te cobrir com os cobertores e te contar aquelas historinhas que até te davam medo, mas tu jamais sentias solidão, nem esse cansaço, nem enxergavas o céu chumbo, nem as gripes doíam tanto. Porque tu eras criança e eu podia estar ali.