Fevereiro 27, 2009...3:29 am

Ar na seringa

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Vi de relance a agulha entrar no meu braço. Antes, pareceu haver ar na seringa. Em volta do posto de saúde passava um mendigo. Ele procurava quem tinha matado uma mulher. Um funcionário de um bar jogou um copo de água nas costas do bêbado para afastá-lo.

O ar embolou as carnes do braço e começou a fazer o coração pular. Apoiei o braço no guarda-chuva e pensei na mulher morta, quem seria ela e o que teria sido do ébrio à frente, na saída do posto.

Começou a ficar tudo sonolento. O sono igual ao de viagem de ônibus em dia de sol e barriga cheia, de calor sacudido.

Partes de uma boneca no chão, funcionários robotizados e enferrujados, teu chamado no telefone com medo do escuro e da mulher morta e dos restos da boneca e da ferrugem que corrói os prédios abandonados da cidade.

Aprender a viver só é conseguir sentir esses cheiros todos, somar essas visões em um caleidoscópio e manter a testa fixa, sem enrugar.

Vou sempre atender ao chamado que vem tarde e na escuridão. Como se fosse Batman sob a luz do morcego no céu. Sob os sapos que caem das nuvens. Você fica linda de vestidinho.

Ainda assim, às vezes a gente sente cheiro de jasmins depositados em túmulos.

Nesses momentos é que penso haver ar na seringa.

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