Setembro 24, 2008...12:11 am

Pego jovem demais para perceber as desimportâncias

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O coordenador de disciplina passou por Holden Caulfield. Acabara de vê-lo na sala da disciplina. Fazia pouco, dera uma lição de moral nele e nos outros cinco alunos que estavam ali. O Clube dos Cinco Mais Bagunceiros se matava de rir enquanto o coordenador, o Poleto, discursava sobre moral, disciplina, bons modos, educação. Holden Caulfield se manteve quieto.

A professora olhou para Holden Caulfield e disse: “Quando eu era da idade de vocês, era quieta como ele. Eu queria ser detetive”. Holden Caulfield lembrou dos seus livros de Agatha Christie e estremeceu.

O coordenador de disciplina passou por Holden Caulfield. Disse: “Você era um bom aluno. O que está havendo? Agora tem essa suspensão”. “Eu vou rodar mesmo.”

Holden Caulfield estava no primeiro grau e chegava de moto todos os dias ao colégio estadual. Um dia, uma menina falou, alto: “Chegou o guri mais rico do colégio”. Holden Caulfield ficou vermelho de vergonha, mas tinha preguiça de andar três quadras a pé entre sua casa e a escola.

Holden Caulfield cumpriu um dia de suspensão. Não lembra do que fez naquele dia. Passou o tempo recordando de quando havia roubado uma foto do quadro-mural da escola. “Ninguém desconfiaria dele”, disse o professor de Química, na sala de aula, olhando para Holden Caulfield, que ficou constrangido.

Holden Caulfield perguntou um dia para sua tia o que a enteada achava dele. A tia gaguejou um pouco, pega de surpresa com a pergunta. O motivo do questionamento, caso ela indagasse, seria “eu roubei uma foto e queria ver se ela sabe”. É o que Holden Caulfield diria. Mas, na verdade, ele estava a fim da enteada da tia dele e tinha vergonha de contar.

Holden Caulfield fez as provas de recuperação de Química, Física e Matemática. Passou por pouco nas duas primeiras. Na última, entregou a prova para um colega fazer. Passou com dez e se sentiu muito esperto.

Anos depois, Holden Caulfield conversava com um colega daqueles tempos. “Se tivéssemos a cabeça de hoje, nem iríamos dar muita bola.” “É. Eu teria avacalhado mais.” “Botava uma bomba naquele colégio.” “Ia ficar rindo da cara do Poleto também.”

O livro acaba e Holden Caulfield fica jovem para sempre.

Ficasse velho e tudo lhe pareceria tão desimportante.

Holden Caulfield, jovem para sempre que é, não encontrou uma década depois o Poleto em uma fila de uma clínica médica. Seu rosto envelhecido tinha a expressão das dores dos anos.

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