Maio 12, 2008...3:43 am
A testa enrugada
Fiquei um dia mais velho depois de tragar um narguilé e sentir a dor do lado esquerdo atrás da cabeça, que teimava em fazer os dentes tremerem e a boca bater por causa das poucas horas de sono. Fiquei três anos mais novo quando vi por detrás da fumaça do narguilé o ex-colega do primeiro grau com os cabelos brancos e as rugas espalhadas pelo rosto. Era o Testa, o que tinha uma testa gigante e que era chamado também de Duca, e que um dia, durante a aula de educação física, disse ter lavado, massageado e preparado bem o pau para poder comer uma colega nossa, assim, a gente tudo com uns onze anos. Pois o Testa enrugava a testa quando pensava, e normalmente quando ele pensava ele nada mais fazia. Uma vez resolveu pensar, beber refrigerante e comer Pastelina ao mesmo tempo. Ficou com a testa enrugada e a boca cheia de pastelina mastigada enfiada na garrafa de guaraná. Quando tirou a garrafa da boca, no gargalo veio um bolo derretido do salgadinho. Ele desenrugou a testa e falou com alguém. Segundos depois, ouviu “que nojo!” da boca de uma menina. O Testa enrugou a testa, desenrugou a testa e fez um movimento rápido com a garrafa. O bolo semideglutido voou direto para o pé da menina. Por trás da fumaça, o Testa estava acompanhado de uma loira bonita. Ele parecia ter perdido o costume de enrugar a testa porque não havia marcas de expressão. As rugas estavam nos olhos, na boca, no pescoço, mas não na testa. Os dois se olhavam e pareciam leves ali, atrás da fumaça. Era a imagem da facilidade, do paradoxo do colégio público miserável e da vida particular enriquecida. A fumaça se dissipou e o casal também. Talvez nunca mais o veja na vida. Ele, se me enxergar, não saberá quem sou. Porque parecerei de outra turma, de outra idade, um garoto diante do velho com sua bonança, sua esposa perfeita, seu sorriso enrugado, seus olhos com pés de galinha e, ali, incólume, sua testa reluzente e lisa, inacreditavelmente lisa.




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