Na direção do mormaço, estendi meu braço, toquei e peguei álbuns que apenas minha mãe espera envelhecer o corpo para virar as páginas e se imaginar moça, e ver os filhos pequenos de novo, como tudo era feliz e aconchegante em um apartamento apertado com cheiro de café e de gente que dorme encolhida. Como agora esses filhos estão distantes e é difícil receber o carinho deles. De cinco em cinco anos desde o nascimento de meu irmão, a mãe pensa em pegar os álbuns para recordar. Mas acha que vai chorar e lastimar as separações que a idade gera. Por isso, ela espera que os anos passem e surjam mais rugas em seu rosto. Quem sabe uma hora seus filhos possam, juntos e com ela, passar as páginas envelhecidas, uma a uma, sem que ela chore sobre o passado colado com Tenaz.
1978 – Derradeiro verão que tive como filho único. Meses depois, escrevi em um álbum colorido que ele seria o Batman e eu, o Robin. Seríamos uma dupla inseparável. Ganhei uma fantasia de Homem-Aranha. Ele, de Super-Homem. Ele voava e eu passeava com minha teia para lá e para cá. Às vezes as promessas não se cumprem.
1983 – O Grêmio seria campeão mundial no frio. O calor daquele verão morreu junto com minhas lágrimas no colégio público. Grudava as mãozinhas na cerca de metal em março, olhando para a rua, querendo ir para casa. Não comia a merenda e não falava com ninguém. Até que decidi experimentar o arroz de leite. Passei mal e nunca mais comi isso. Até que decidi falar na aula, antes da eleição, que gostaria de saber qual presente ganharia por ser eleito o melhor amigo de todos. Na eleição, meu nome sequer foi citado. Joguei futebol como se fosse Renato Portalupi para poder ser aceito e não apanhar do negão que vivia torturando meus amigos. Por que eu não os ajudava, eu não sei. Talvez por medo. Talvez por ser mais Valdo do que Renato Portalupi. Até o dia em que fui acompanhar um garoto de comportamento ruim e apanhei. Segurei o choro até a mãe chegar. Mas aí o verão já havia morrido. Portalupi fez dois gols e meu pai, barbudo, me levou para comemorar nas ruas. Havia tanta gente que eu nem sabia que Porto Alegre, aquele feudo, era tão populosa.
1988 – Um dos verões terminais em Atlântida. Últimas férias antes das aulas no colégio público — no ano seguinte, conheceria o regramento de uma escola lassalista conservadora. Momentos restantes da infância. Meu irmão não me perdoava por deixar de brincar com ele. Um dia, atendi o telefone e era uma colega de aula. Ele ficou caçoando: “Namoradinha!”. Outra vez, adquiri um time de botão. “Ué, virou criancinha de novo?”, ele atacou. Nas duas oportunidades, empurrei a concha para que ela se fechasse mais. Depois virei a boca da concha para o outro lado, dando-lhe as costas definitivamente, e saltei na água salgada de Atlântida pela última vez.
1993 – Um verão que começou como terminaria o ano: perdido. Um ano inteiro para fazer cursinho e passar em jornalismo na PUC e em sociologia na Ufrgs. Deixei um amigo agonizando em coma alcoólico no chão de uma praça em Imbé. Depois, o levamos para casa. Os pais dele choraram quando chegamos, depois de ele ter tomado glicose no posto de saúde. No dia seguinte, fui até a casa dele. Na cama, a mãe retirava feijões, arroz e massa do cabelo do filho.
1998 – Aula às 7h30min em março. Ufrgs, administração. Olhava em volta e sentia uma angústia. O tempo passava e não melhorava. Repetição de cadeiras de cálculo. Dia da Marmota, as coisas não saíam do lugar. A única amiga, uma gordinha estranha que usava boné todos os dias. Um dia disse para ela: “Voltei a fazer jornalismo”. Ela achou tão legal que decidi largar a administração e nunca mais encontrar a menina. Só uma vez, fugaz encontro em um banco, onde trabalhava em uma função sem importância. Depois, pela televisão. Não sei em que canal, nem fazendo o quê. Aliás, esqueci o nome dela.
2003 – Formatura com festa, amigos, calor, chutado pela namorada, recém-pedido-demissão, vexames na colação de grau, música: Drain You, Nirvana. Não comia mais nada. Gostava apenas de matar a sede com cerveja. Então apareceu a menina que falava francês e senti que tinha sido salvo. Mas ela execrou a mãe em português na primeira vez que a vi. Mais tarde, procurei conselhos com a mãe. Ela deixou bem claro que procurava sempre não se apegar aos namorados da filha e me indicou um psiquiatra.
2008 - O sol do verão me causou uma mancha na barriga que mostro para todo mundo. Coisas que servem para marcar uma estação. Faz uns dias que pensei em ter um filho. Aquela história de evitar a propagação da miséria humana ficou para a literatura. Quero ver você e eu em um só. Quero que o sol continue me queimando e deixando marcas.
* Meme enviado pela Vanessa Zanini, a Rob Gordon da internet. O título é de um CD da banda Deus e o Diabo.




4 Comentários
Janeiro 19, 2008 às 1:39 pm
bahhh, se eu te disser que me arrepiei com o post… tu acreditas? principalmente nos dois últimos anos. a vida roda e a gente muda muito, né, guri? isso que é o bom.
adorei ser a Rob Gordon da internet!
saudade de vcs!
bjus
Janeiro 21, 2008 às 12:35 pm
Muito bom.
E é tudo verdade, que eu sei.
Janeiro 21, 2008 às 1:28 pm
“… Talvez por ser mais Valdo do que Renato Portalupi…”
Quem eu conheço que é Valdo, quem é mais Renato? Quem joga com a meia pra cima, quem joga com a meia pra baixo? Quem come a mulherada, quem casou e constituiu família? Quem misturou as duas coisas? Quem desapareceu e quem continua por aí? Quem é inteligente, quem é valente? Quem fica dividindo tudo em dois? Agora, mais Valdo que Renato, volto ao trabalho. Grandes textos, cara. Me identifico pra caralho.
Janeiro 23, 2008 às 10:56 pm
sem meia! descalço! sem cortar as unhas! ou de kichute! cadarços amarrados ao redor das canelas! aí é que a porca torce o rabo!