Saltou do prédio direto para a água. Viu sua vida passar pela cabeça naqueles poucos segundos. A grande enchente de 1941 foi sua piscina naquele dia, da mesma forma que o oceano Atlântico também o foi enquanto os verões se sucederam, ano após ano, na casa de Atlântida. O sabão preto depois do banho de mar, a sola dos pés raspadas contra o cimento para tirar o cascão. Gargarejo de iodo na orla. As mãos e o rosto cada vez mais manchados pelo sol. Tardes das bruxas da Fernanda, tardes de fugir do Roberto, tardes de futebol nas goleiras do Rafael, tardes de bocha dos adultos, tardes para deitar na rede, tardes de sentar no colo do contador de histórias. Crianças maravilhadas com a mitologia de personagens com mãos e pés gigantes que acabavam virando jogadores de futebol. Histórias de repentista, criadas na hora.
O último dia em Atlântida foi quente e chuvoso. O mar estava de ressaca. Fui à praia tentar achar alguém. Não havia nenhum conhecido. Caminhei pelas ruas atrás dos amigos. Haviam sumido. Fiquei acompanhando as faxineiras lavando a casa para ser vendida. Eu nunca mais voltaria ali. Assim acabava um elo de ligação entre a família. O outro, porém, permanecia encarnado no vô, cimento que une os tijolos.
Adultos, continuamos ouvindo suas histórias. Agora, casos reais. O trabalho na seguradora e a maleta com todos os seguros de todas as empresas possíveis, o que não dava margem para que o cliente alegasse falta de opções. O “inimigo” que o vô tinha na adolescência. “O cara era mau”, dizia o Breno sobre o Bubuco, tentando nos convencer sobre a vilania do inimigo cuja mãe andava pela casa chamando pela alma do Tupi – o cachorro da família.
Verdade ou mentira, lenda ou exagero, o Breno sempre foi um personagem folclórico no meio familiar e pouco importa se há ficção no meio da realidade – aí está a graça de tudo. Como a história de que ele havia se alistado para lutar na Segunda Guerra Mundial do lado da Alemanha. Como a vez em que ele apareceu em um daqueles tradicionais churrascos de domingo com o bigode do Hitler. A desculpa: cortara-se debaixo do nariz e não podia se barbear.
Os anos iam escorrendo e nada de o vô envelhecer. Era sempre o mesmo, inexistia o que o abalasse. Mas a passagem do tempo é inadiável. Seu pequeno arquivo de metal que guardava os dados das apólices por ordem de vencimento agora tinham as fichas com os aniversários dos netos. Ainda que não aparecesse na pele do vô, o presente corria rápido e virava passado ao dobrar a esquina.
Então chegou o dia em que o cimento da parede rachou. Uma lenta infiltração, uma tragédia anunciada. A vó Ieda, já bem esquecida em seus pensamentos confusos e repetidos, o deixou. O enterro no São Miguel e Almas foi a primeira vez em que o vô ficou menor, mais magro e velhinho. Naquele período, a Zazá esteve lá e uma escora impediu que o vô rachasse. Aos poucos, foi sendo reconstruído. Hoje, completando 90 anos, vemos todas essas marcas na vida nele, inevitáveis rachaduras na parede ainda de pé. No entanto, não vemos, não conseguimos perceber velhice no vô. Muito também por causa do seu bom-humor, da sua inesgotável energia. Afinal, ele continua dizendo que, da cintura para baixo, tudo segue funcionando.
Mas hoje conto essa história para vocês porque algumas coisas na vida me levaram a gostar de fazer isso: contar histórias. Entre essas coisas estiveram as sessões com o vô Breno em Atlântida. Tenho certeza de que ele guiou muitos mais de nós, de diferentes formas, para diferentes caminhos, mas com uma só ética e sempre em um só sentido, o sentido do bem. Que agora, quase centenário, o vô continue sendo aquilo que tanto nos impressiona: sempre o mesmo.



