fevereiro 10, 2010

Não-ficção 6

LOCAL: MUSEU IBERÊ CAMARGO

— Crianças, vocês sabem por que não se pode tocar num quadro?

— Por que quebra?

— Por que estraga?

— Por que cai?

— Ééé… a nossa mão é molhada, vocês já perceberam? Ainda bem, né, porque senão iam ficar machucadas, iam rachar. Isso é bom para nós, mas, se tocar em um quadro, não é bom. Vocês sabem por quê?

— Porque quebra.

— Porque estraga.

— Porque cai.

— É porque os dedinhos molhados podem estragar a tinta.

— Aaaaaaaaahhh…

— Então, vocês não fiquem muito perto dos quadros, tá legal?

— Táááá…

— Também não pode mascar chiclete. Alguém aqui está mascando chiclete?

(Uma menininha de sete anos olha para a boca do repórter, em movimento frenético.)

— Ele tá mascando chiclete!

— Mana! É feio apontar!

— Haha! Eu vou te pedir para jogar fora o chiclete quando chegarmos lá em cima, ok?

— Ok.

— Tem uma lixeira lá.

— Tá bem.

— Oh, desculpa, a minha filha, ela…

— Nã, nã… tudo bem.

***

LOCAL: ZONA SUL

— Eu sou o último barbeiro do bairro.

— Putz.

— E mais antigo do que eu no comércio só tem a Casas Cafofo.

— Bah. Pois é, mas, então. Beleza, o motorista tá me esperando faz tempo, agora eu tenho que…

— Hum.

(Olhar fixo na mufa do repórter.)

— ?

— Teu cabelo tá horrível. Onde tu trabalha deixam, mas no meu tempo não podia.

— Pois é…

— Vem cá. Vou aparar teu cabelo.

— O motorista, sabe…

— Só aparar um pouco a suíça e a nuca.

— Ãhn… tá bem.

(Fundos da casa do barbeiro, onde ele montou um salão após a aposentadoria.)

— Pode sentar.

— Tá.

— Então. Eu blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

— Ei! Não corta aí em cima!

— Ah, é.  Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá. Pronto.

— Bah. Valeu.

— Quando quiser fazer todo o cabelo, volta aqui.

— Certo.

***

LOCAL: REDAÇÃO

— Olá. Olha só, eu gostaria de falar com o Fulano.

— Gostaria de falar com o Fulano direto?

— Sim…

— Com a pessoa?

— Ãh… sim… (desculpe por eu ter nascido).

***

LOCAL: CENTRO

— Oi, eu combinei com o pessoal da FGHIJ de entrevistar a gurizada que está ensaiando aí.

— Ah. Só um pouco que vou chamar o TPM.

— Tá bem.

(Passam vários minutos.)

— Olá. Sou o TPM.

— Oi. Sou o André, da ZH. Eu combinei com o pessoal…

— Não será possível fazer a entrevista hoje porque a chefona não está.

— Ãh… como?

— A chefona estará só na semana que vem. Podes marcar para a semana que vem, que aí ela pode ser entrevistada.

— Ãh.  Olha só, eu marquei com agurizada e o maestro. Eu vou entrevistar a gurizada e o maestro. Eu NÃO VOU ENTREVISTAR A CHEFONA.

— Só semana que vem.

— Esse é um projeto da FGHIJ.

— Aqui é o MNOP.

— A FGHIJ estava sem um lugar para ensaiar.

— Aqui é o MNOP.

— Eles só estão aqui porque não tinham onde ensaiar.

— Aqui é o MNOP.

— Vocês  só estão cedendo o lugar. O projeto é do…

— Aqui é o MNOP.

— Haha! Tá bem. Vou embora.

— Tá bem. A saída é por ali.

FINAL DA HISTÓRIA: A ENTREVISTA FOI FEITA NA PRAÇA DA MATRIZ

***

 LOCAL: REDAÇÃO

— Bom dia. Pode me passar para a assessoria de imprensa?

— Hã. A gente não tem.

— Com quem eu posso falar sobre os projetos da empresa em Porto Alegre?

— Ãh.

— Algum gerente?

— Ele tá no telefne. Pode ligar depois?

— Muito tempo?

— Uns 20 minutos.

1,2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20.

— Oi, sou eu de novo. O gerente está?

— Está viajando.

— Viajando? Ele não estava aí?

— Não…

— Olha só, minha editora disse que quem faz assessoria para vocês é  a Fulana da Silva.

— Fulana? Peraí.

— …

— Olha só…

— ?

— Fulana só tem uma aqui, e ela é do xerox.

(Faz sentido. A menina fazia a taxação de manhã, aí viram que ela ocupava o turno fazendo os xerox. Aí mantiveram ela como assessora de imprensa de manhã e mulher que copia à tarde. Faz sentido.)

— Bom, de qualquer forma tenho o ramal da assessoria. É 123, Pode me passar?

— Claro.

— Obrigado.

Tutututututututututu…

(Nova ligação.)

— Alô.

— Sim?

— Sou eu. De novo.

— Oi.

— Olha só. Falei com a Fulana pelo celular. Ela não trabalha mais aí. Ela me disse que eu devia falar com o Beltrano, do marketing.

— Ah, tá. Vou passar.

— Alô.

— Bom dia. Eu queria falar com o Beltrano.

— Hum. Agora ele não está. Só mais tarde.

— Muito tarde?

— Mais pro fim da tarde.

— Tá bem.

— Alô.

— Boa tarde. Eu fiquei de ligar para o Beltrano agora à tarde…

— Ah… o Beltrano. A gente também está atrás dele.

THE END

***

 LOCAL: ZONA SUL

— Olha só isso aqui. Isso aqui tá um lixo. Botaí na matéria ó, bota isso aqui. Mostra assim, ó, tira a foto daqui.

— Ah, tá.

— E aqui, olha só, isso era para ser um negócio legal, mas olha que lixo. Tira uma foto daqui e mostra assim.

— Aham.

— Esse lugar aqui era para ser turístico. Mas olha só que lixo. Faz uma foto daqui, ó. Mostra, assim, o Guaíba. Pega mais dali, ó, que fica melhor.

— Sim.

— Aqui, ó, essa  ponte. Se um carro bate na mureta, cai lá pra baixo.Isso vai dar morte. Tira uma foto dali, ali dá pra ver como é fundo.

— …

— Não, não. Melhor fazer a foto do poste daqui, ó. Não vai aparecer direito, assim.

janeiro 30, 2010

Um pedaço

Toda vez que passo pelo quarto, vejo o pedaço teu, com o teu formato e o teu cheiro.

Foi uma noite dura, quente e suada. Palavras proibidas ditas como se fossem o cubo de Hellraiser mexido, o espírito mau baixado, a porta aberta para a orquestra de Angelo Badalamenti.

Laura Palmer soltou o pônei que tinha recebido de presente. Ele sumiu por meses. Foi encontrado com uma pata quebrada, esfolado, raquítico. Duas balas na cabeça acabaram com sua agonia.

Algo partido aqui dentro fugiu, foi para o mar, afogou-se na água salgada, teme voltar. O silêncio se mantém como uma súplica, também como um respeito, também como uma dúvida, como um pônei indefeso libertado da vida.

Travesseiros sujos de suor velho. Travesseiros para só uma cabeça. Ao lado, teu pedaço, esquecido pela pressa, pela decisão repentina, pela dúvida.

Vejo tudo de novo, cena após cena: chorou um pouco naquela cama. Levantou. Reuniu todos, todos, todos os pedaços. Menos um.

Foi embora.

janeiro 29, 2010

Boa companhia, desarmonia

Desarmonia, nós somos boa companhia.

Se houvesse uma gurizada correndo em direção ao precipício e eu estivesse no campo de centeio deveria correr para pegá-los e evitar que caíssem. (J. D. Salinger morreu em 28 de janeiro de 2010.)

Não posso falar contigo como se fosse amigo, não posso falar contigo como se fosse amante. Um casal em desarmonia no mundo.

Eles correm pelo campo de centeio.

Boa sorte, nós somos boa companhia. Não sei sobre o que estamos falando.  O negócio é ficar dando voltas para que não falemos sobre nossa, uh, boa sorte, somos boa companhia, desarmonia.

(Misery Loves Company = right.) Anthrax

Holden = hold = segurar.

Se eu for recuando para pegar a todos talvez você fique para o final. Eu sei que vai ficar para o final. É para quando fica o melhor. (Only the Good Die Young = wrong.) Iron Maiden

Um beijo inocente em um momento de carinho dura mais para sempre do que um cheio de trago e sexo?

(Bad Harmony = true.) Frank Black

Não consegui pegar todos. Você se aproxima.

Noventa e um anos, há uns 30 recluso. (The Unforgiven = really.) Metallica

James Hetfield (field = campo).

Boa companhia, desarmonia. Boa sorte para nós, estrada abaixo. Aqui está você nos meus braços.

Velocity Girl.

Junto caímos precipício abaixo.

janeiro 5, 2010

Patas descarnadas

Ela sentou com as amigas a uma mesa próxima da nossa. Usava uma florzinha verde na cabeça que combinava com seu vestido da mesma cor. Sua tentativa de se tornar um pouco bonita era emocionante.

Ela chega sempre rengueando. Tem 12 anos, as patas duras e descarnadas. Deram a ela um remédio que liquidou com suas defesas. Aí pegou sarna. Ficou que nem os cachorros-zumbis do Eu Sou a Lenda.

Era uma tarde quente, ensolarada e ressaquenta. Sob o guarda-sol na beira da praia de  pessoas perfeitas estava a garota com suas amigas. Elas observavam os musculosos, que sacavam as belas, e não elas. A menina, agora sem a florzinha verde, olhou para mim. Retribuí. Continuamos.

Ela levanta de sua pose descansada no chão sempre com esforço canino. As patas não dobram, então ela faz uma curva com o corpo e em rápida troca de movimentos dos membros enrijecidos consegue se erguer. Caminha até mim. Devagar.

O sol caiu atrás do mar e elas começaram a arrumar as coisas. Duas foram até o bar. A menina da florzinha verde ficou. Nos olhamos. Ela dobrava sua toalha. Será que as outras demorariam? Decidi que devia ir até ela antes que as outras retornassem. Quase fui. O pé trancou em um monte de areia padrão. Pensei que ela era feia demais.

Ela se deitou perto de mim. Como quando era uma filhote, avançou sua barriga para mim e abriu as patas. Dei a ela a coçadinha que faz mexer sua pata traseira. Ali pude ver a amplitude da doença. Seu corpo está se derretendo. Os pelos dão lugar a uma carne preta enrugada. Ela está um pavor.

As amigas voltaram. Ela levantou da cadeira, pegou suas coisas e caminhou em minha direção. Passou por mim me olhando, e eu olhando para ela. Ela não tinha pele descarnada, mas sentia como se levasse algo errado no corpo.

Ela baixou os olhos.

Não a encontrei na festa de noite.

Ela baixou os  olhos. Dormiu quase no meu colo.

A feiúra me pegou pelos cabelos alvoroçados e tentou me fazer instrumento contra aquela beleza toda. Olhei depois para a gente que passava na noite quente, rançosa a reggae, mas sem feia nenhuma. E aí meu peito dilatou.

Senti quebrar uma coisa no peito.

Por causa de um montinho de areia, morreu um pouco do que havia dentro de mim. Porque lá dentro é que se esconde a beleza de todos.

Quando ela se for, sentirei saudade.

dezembro 22, 2009

Não-ficção 5

LOCAL: ZONA SUL

— Com licença, eu tô fazendo uma matéria…

— Eu já tenho, eu já tenho!

— Senhora, eu tô fazendo uma matéria…

— !

— É sobre dengue.

— ?

— Olha só, posso te entrevistar?

— ?

— Senhora.

— !

— Ei, senhora, peraí…

— !!!

***

LOCAL: REDAÇÃO

— Opa, é o Fulano?

— Isso.

— E aí, meu. É o André da ZH, tudo bem?

— E aí, Andrezão! Beleza?

— Beleza. Cara, queria ver de vocês sobre as contrapartidas ambientais.

— Cara, cada vez mais esse lance ambiental é cool.

— Ah, é.

— Depois de foder com a cidade, as empresas têm que investir na parte ambiental.

— Ah, sim.

***

LOCAL: REDAÇÃO

— Mas, André, não estou lembrada agora, qual é a mão dessa rua?

— Ela vai em direção à Santo Antônio.

— À Santo Antônio, é?

— É, vai só pra Santo Antônio.

— Ah. Acho que é, né?

— Isso, ela vai.

— Aham.

— Ela sóóóóóóóóóóóóóó vai.

***

 LOCAL: ZONA NORTE

— A partir daqui congestiona tudo.

— Ah, é? Tá bem. Qual o seu nome?

— Fulano da Silva.

— Tá bem, obrigado.

— De nada.

Vrum.

— Ei, moço!

— Hã?

— Pode me ajudar? Meu carro parou!

— Peraí.

Vrum-vrum-vrum.

— Ah, que bom. Pegou.

— Tá bem.

Vrum, vrum, vrrrppppppp.

— Ei! Socorro!

— Opa, parou de novo?

— Siiim! Ei, me ajudem!

— Olá, senhora. A gente ajuda.

— Opa, tudo bem?

— Tudo bem. Vamos empurrar aí.

— Ok.

— Acabou a gasolina.

— Sério?

— É. Pô, o que que custava a muié botar cinco pilas de gasolina?

— Pois é.

— Agora tem que ficar suando aqui.

— Mmmmmm…

Tac-tac-tac-tac-tac-tac.

— Pronto. Agora os caras do posto levam.

— Oh, obrigado, viu?

— Não tem de quê, senhora.

— Tchau.

— Putz.

— Que foi?

— Tô suando que nem uma capivara.

***

 LOCAL: ZONA SUL

— E aí, cara, dormiu muito?

— Não, não. Tava lendo o jornal.

— Bom, vamos voltar pra base então…

Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu…

— Bah, peraí. Telefone. Alô. Oi. Hã. Hã. Aham. Tá. Qual o endereço? Tá. Rua Cabeça na Estaca. Ok. Falou.

— Quem era?

— A Cicrana.

— Ela quer que a gente vá na Cabeça na Estaca?

— Sim. O que tem? É só pra pegar uma foto.

— LÁ A GENTE NÃO PODE IR.

— Por quê?

— SABE ONDE TIRARAM A FOTO DO CARA QUE TINHA MATADO OUTRO?

— Sim.

— NOS PROIBIRAM DE IR LÁ. E A GENTE TÁ COM CARRO DISCRETO. VÃO ACHAR QUE É A POLÍCIA, O QUE É MUUUUITO PIOR!

— Jesus. E agora?

— VAMOS LÁ.

— Tem certeza? De repente eu ligo pra ela e…

— AGORA VAAAAMOS LÁ!

— TÁ VENDO TODO MUNDO NOS OLHANDO?

— Bah. Pior.

— A GENTE NÃO PODIA ENTRAR AQUI UMA ÉPOCA.

— Por causa da foto.

— É, A FOTO.

— Bah, e onde fica o endereço?

— A RUA DEVE SER ESSA. LOGO ALI ATRÁS TÁ A RUA EM QUE MATARAM O CARA.

— Jesus. Mas cadê o número?

— QUAL É O NÚMERO?

— Sete meia cinco.

— MAS ALI É PAR, E DO OUTRO LADO TÁ NO TREZENTOS!

— Não tem o número. É uma cilada.

— PERAÍ. EI, AMIGOOO! QUE RUA É ESSA?

— Cabeça na Estaca.

— É AQUI SIM. E SÓ PODE SER ALI.

— É ali. Vou lá.

— Feito, meu, vamos embora daqui.

— VAMOS.

VRRRRRRRRRRRRUUUUUUUUUUM!!!

— Alguma vez te aconteceu algo aqui?

— SIM. MANDARAM EU SAIR DAQUI. ERA DE NOITE.

— Jesus! De noite?

— É. DA PRÓXIMA VEZ MANDA ELA VIR BUSCAR A FOTO.

***

LOCAL: REDAÇÃO

Trrrrim.

— Alô. Sim? Ah, está sim. André, é pra ti.

— Quem é?

— Beltrano Silva.

— Beltrano Silva? Jesus! O QUE QUE EU QUERIA FALAR COM ELE?

— Quê?

— PUTA QUE PARIU! PERAÍ! DEIXA EU VER AQUI NO BLOCO!

— André…

— PUTA, QUE MERDA! PERAÍ, PERAÍ! CADÊ ESSA MERDA?

— !?

— CARALHO! PORRA! AHHH! TÁ AQUI! ME DÁ O TELEFONE!

— Alô?

— Olá, Beltrano, tudo bem? Eu queria falar contigo sobre blá-blá-blá-blá…

dezembro 12, 2009

Não-ficção 4

LOCAL: REDAÇÃO

— Cicrano da Silva dos Santos, né?

— É.

— É sobre a final  no domingo. Vocês sabem como o time deles vai jogar? Têm acompanhado?

— Não.

— Eles têm o Fulano Beltrano, que é filho do Doisberto Beltrano.

— Ah, sim. Mas se é por fama a gente tem o Fufu.

— Fufu?

— É. Ele é primo do Tresberto, que passou pelo São Paulo e agora está na Alemanha.

— Ah… Como é o nome completo do Fufu?

— Cicrano da Silva dos Santos.

— Ei, mas é tu.

— É. Hehehe.

***

LOCAL: REDAÇÃO

— Tá bem. Para qual telefone eu ligo?

— Trezentos e alguma coisa um, setenta e dois, cinquenta e três.

— Hum… ok, sete dois, cinco três, né?

— Não! Setenta e dois, cinquenta e três!

***

LOCAL: REDAÇÃO

— Cara, queria saber de onde é  esse artigo.

— É do Código de Trânsito Brasileiro.

— Ah. Do Código de Trânsito Brasileiro…

— É. A nossa bíblia. Hehe.

— Bíblia? Haha.

— HAHAHA!

— Hehehe.

— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!

— He.

— HUAHUAHAUHAUHAUAHUAHAUHAUHAUHAUAH!!!

***

 LOCAL: ZONA SUL DE PORTO ALEGRE

— Mas e aí, por que tu não coloca enfeites de Natal na tua casa?

— Ai, eu fico cansada…

— Cansada?

— É. Todo mundo tá cansado. E custa caro, também. Mas se a RBS me der umas luzes, eu boto. Tu vai me dar umas luzes?

— Hã? Não, acho que não tem luzes.

— Tem, sim. Me dá que eu boto.

— Olha, não tem não.

— O que tu tá fazendo aqui?  Não vai me dar umas luzes?

— Olha, tô fazendo uma matéria. Não tem nada de  luz.

— Ah, bom.

— Pois então, posso tirar uma foto tua pra matéria?

— Quê? Não! Olha os meus olhos!

— Teus olhos? Bah. Pois é, né, tá meio ruim.

— É, tô com um negócio aí.

— Bah. É, entendo. Deixa assim então.

*** 

LOCAL: ZONA NORTE

— Olá. Estão esperando o senhor lá dentro.

— Opa. Beleza.

Caminha, caminha, caminha, caminha, caminha…

— Oi, oi, oi.

— Oi, tudo bem?

— Olá, olá, olá.

— Oi.

— Tudo bem?

— Oi, oi.

— Como vai?

— Ô, tio?

— Oi, o que é?

— Cadê aquela camerazona?

— Ah, não, bah, não tem.

— Não tem?

— Não. A gente faz fotos nessa maquininha aqui.

— Ahhhh é?

—  Ééé…

— Tio, vou indo.

— Tchau.

— Tchau.

— Tchauzinho.

— Tchau.

— Tchau-tchau.

— Tchau.

***

 LOCAL: BAR NA ZONA NORTE

— Olha, esse quen está sentando ali é o Fulano de Tal, é o mais antigo entre a gente. Ele é general do Exército.

— Ah, é?

— Sim.

— Ei, quem é esse rapazinho? (Clec, clec, a dentadura viaja na boca.)

— Esse é o André, da Zero Hora, general.

— Ahhhhh… (Clec, clec, a dentadura viaja na boca.)

— Tudo bem, general?

— O que que tu faz, rapaz? (Clec, clec, a dentadura viaja na boca.)

— Eu sou jornalista.

— Quê? (Clec, clec, a dentadura viaja na boca.)

— Sou jornalista.

— Jornalista??? (Clec! Clec! A dentadura viaja na boca!)

— Sim, da Zero Hora.

— Então me diz aí por que que a Zero Hora não publica as cartas que eu envio! (CLEC! CLEC! A dentadura viaja na boca!)

— Ãhhhh… bãihn… sei lá… não sei.

— Eu sei. CLEC, CLEC, CLEC. É que não gostam de militaresCLEC!

— ?

— Vocêsclec não publicleccam cartas de miliclectares.

— Não, não é verdade. Mas vou falar isso pro pessoal.

— Não é nadaclec contraclec ticlec, masclec vocêsclec  nãoclec gostamclec declec militaresclec.

— Acho que não é bem assim…

— General, come o picadinho aí.

CLEC, CLEC, CLEC, CLEC, CLEC.

***

dezembro 7, 2009

Por que falar de futebol

Foram 21 minutos de tensão até que eu concluísse: acabou. Mesmo o que parece para sempre um dia acaba. Até a morte pode morrer, escreveu H.P. Lovecraft. A imortalidade é uma coisa idiota quando se percebe que não existe mais o amador — aquele que ama.

Pensei que minha promessa teria de ser cumprida quando o cronômetro marcou aqueles 21 minutos. Se o Grêmio não entregasse o jogo para o Flamengo, eu deixaria de ser gremista. Deixaria na boa, e não torceria para o Inter nem para o São José. Torceria para ninguém. Era gol do Grêmio, um gol inacreditável que transformaria o Inter em campeão brasileiro de 2009.

Aos 28 minutos começou a aceitação. Até já via que a minha promessa era impregnada de positividade. Nunca mais veria ou escutaria futebol. Seria menos alienado. Porque futebol é, mesmo, alienação.

Aí o Flamengo empatou o jogo aos 29. Ainda dava o título para o Inter, que esboçava uma goleada contra o Santo André em Porto Alegre. Aos 24 minutos do segundo tempo, o Flamengo virou.

O problema, porém, continuava lá, na tela da televisão. Os jogadores tricolores se esforçavam. Não houve um pingo de entreguismo. Eu vi Marcelo Grohe fazendo defesas que não fez ao longo do ano. Eu vi o zagueiro Thiego tirando todas e marcando implacavelmente como não fizera no campeonato. O jogo acabou, sigo gremista, só que senti um negócio ficando mais frio na cabeça ou dentro do peito.

Não existe mais um Renato Portaluppi para dizer que nunca jogaria no Inter. Renato entregaria o jogo com orgulho. No time atual, Souza foi o único jogador gremista que admitiu um amolecimento contra o Flamengo. Gerou polêmica e foi sacado do time que embarcou para o Rio.

O amadorismo acabou.

Quando o amor acaba, ficamos mais gélidos.

E até a  imortalidade pode morrer.

novembro 22, 2009

Não-ficção 3

LOCAL: REDAÇÃO

— Oi, André! É a Cicrana, tudo bem?

— Oi, e aí, tudo bem?

— Olha, ficou ótima a matéria. Muito obrigada. Me ligaram da produção do programa da Fulana Beltrana. Querem que eu vá lá. Não é uma maravilha?

— Bah, que legal.Parabéns.

— E eu quero te dar um presente.

— ?

— É. Passa aqui quando puder. Vou te dar uma cueca.

— Quando tiver um tempo eu passo aí.

***

LOCAL: UM PONTO DA AVENIDA IPIRANGA

— E aí, o que que tá acontecendo?

— A mina ficou presa ali.

— Quem a ajudou?

— Foram eles ali.

— Como é o teu nome?

— Bah. Ó, deixa assim.

— E como é o nome dela?

— Ãããhm. Mocreia.

***

 LOCAL: OPERAÇÃO POLICIAL EM UMA VILA DA CAPITAL

— Ô delegado! Olha aqui nesse esgoto. Acho que é um dedo.

— Bah, tu ouviu isso, Beltrano? Pega a máquina e vamos fazer uma foto!

— Vamos lá.

Corre-corre-corre-corre

— E aí, delegado, tiraram o dedo?

— O policial tá tentando abrir a tampa do esgoto.

— Consegui, delegado.

— Fulano, pega um pedaço de pau pra tirar esse troço dali.

— Aham. Vamos ver.

— E aí, delegado, já dá pra ver?

— Hum… hum. Ah, sim.

— É um dedo, mesmo?

— Não. Olha só. É uma CHARCHICHA.

***

 LOCAL: REDAÇÃO

E-mail para André Mags: Caro André, li sua reportagem e achei estranho um detalhe na foto e se possível gostaria que vc desvendasse esse mistério!!! Ao lado direito da marquise na água aparece uma pessoa vestindo calças jeans e uma camisa amarela… Eu e meus colegas de trabalho gostaríamos de saber se de fato existia mais alguém tentando socorrer aquela garota no momento ou se pode tratar-se de um fato espiritual??? Muitos diziam ser um fantasma… Apenas gostaríamos de saber para esclarecer nossa curiosidade, já que tb sabemos que a garota passa bem e não houveram feridos, graças  a deus!!! Atenciosamente, Cicrano!!!

Resposta de André Mags para Cicrano: Olá, Cicrano. Não é fantasma não. Tinha um cara tentando socorrer a menina pelo outro lado, sobre a viga que fica debaixo da ponte. Não tem assombração nem é Jesus caminhando sobre as águas, não, hehe. Um abraço. André Mags.

Réplica de Cicrano para André Mags: Ufa que susto… mas que a foto ficou sinistra ficou hehehehehe. Obrigado pela atenção e parabéns pela matéria. Abraço.

***

LOCAL: ZONA SUL DE PORTO ALEGRE

— Ó, essa aqui é a Fulana.

— Oi, Fulana.

— Não vai pegar o nome completo dela?

— Sim.

— Fulana da Silva.

— Tá bem. Idade? Ok.

— Ó, e essa aqui é a Beltrana.

— Ah, ok. Bom, eu não vou entrevistar todo mundo, então não precisa pegar o nome…

— Ela é casada com um médico muito conhecido, o Fulano. Pega o nome dela.

— Ãhm… tá bem. O seu nome completo, por favor?

— Beltrana de Souza.

— Idade? Tá. Obrigado.

— André, vem cá. Tem que pegar o nome dessas senhoras aqui, também.

— Bah. Ãh… Deixa eu ver. Por qual eu começo?

— Aqui, ó: Essa é a Cicrana. Essa, a Humberta. Essa, a Doisberta. Essa, a Tresberta. Essa, a Quatroberta e essa, a Cincoberta.

— Por favor, me deem seus sobrenomes e idades.

Tal e tal e tal e tal…

— André, vem cá agora para eu te apresentar a essas senhoras.

— Mais? Onde?

— Elas estão aqui fora. Ó. Essa é a Seisberta, a Seteberta, a Oitoberta, a Noveberta, a Dezberta, a Onzeberta, a Dozeberta e a Trezeberta.

— Jesus. Sobrenomes e idades, por favor.

Tal e tal e tal e tal…

— André, tu ainda não pegou o nome daquelas três ali no canto, né?

— Acho que sim… É que é tanta gente que já não sei com quem que eu falei.

— Não pegou, não. Vem cá.

— Tá.

— Aqui ó: Quatorzeberta, Quinzeberta e Dezesseisberta.

— Uhum.

— Ah! Minha filha chegou. Vem cá, André.

— Sim.

— Filha, dá teu nome pro André botar no jornal.

— Dezesseteberta Silveira.

— Obrigado.

— Já tirou fotos de todas, André?

— Fotos?  Não, de todas, não.

— Então vem cá.

novembro 11, 2009

Culinária que se faz em casa para ninguém

Tenho uma estaca cravada na consciência desde o tempo da infância. O cara era meio abobado, só que era uma pessoa boa. Eu estava com fome e ele me alcançou um saco com salgadinhos. Deixei a casa do meu amigo e meti um salgadinho na boca. Estava velho.

Um a um, como se fosse João e Maria na floresta, os salgadinhos foram sendo deixados no chão. Quase até o caminho de casa foi a caravana de salgadinhos em fila indiana.

Ele me deu salgadinhos velhos. Eu podia ter jogado o saco fora, mas fiz uma trilha. Talvez para que ele visse e se sentisse punido.

SUBTÍTULO DE “CULINÁRIA”

A VINGANÇA DA SORTE

Tem umas receitas que pratico. Tem uns que gostavam muito do meu sanduíche hiperequipado. No meio havia pequenos pedaços de ingredientes absurdos que davam um gosto bem de leve de algo impensável ao sanduíche. Adoravam.

Depois veio o saladão gordo. Uma salada com ingredientes tão possantes quanto uma churrascada. Havia quem pedisse retoques em alguns dos ingredientes e supressão de outros. Sempre, porém, havia o sucesso.

Como salgadinhos deitados ao chão, as receitas foram envelhecendo. Aí, pior do que envelhecer foi tornarem-se comuns. Enjoou. O que parecia tão diferente virou mais um pastozinho sem mais nem menos.

Hoje, como sozinho meus pratos. Iguais a Baconzitos, Chips, Ruffles ou Doritos jogados ao vento, as receitas voaram e ficaram somente na minha cabeça. Saco, sanduíche e salada são os únicos pratos que sei fazer.

Achei que ia matar a tua fome.

Mas os ingredientes ficaram pelo caminho.

novembro 6, 2009

Não-ficção 2

LOCAL: REDAÇÃO

— Ciclana?

— Sim?

— Tudo bem? Tô ligando sobre o material aquele do santo. É uma mão dele que vem da Itália para ser exposta, é isso?

— Não é só a  mão. É desde o cotovelo.

— Ah. O antebraço.

— É. Foi a única parte que sobrou do santo.

— Ah, é?

— Sim. Mas está bem inteira. Parece até que foi cortada ontem!

***

LOCAL: REDAÇÃO

Ao telefone, estreia no Obituário.

— A sua mãe tinha marido? Quer dizer, ela era casada?

— Sim, foi casada. Ele já morreu. Mas eles tinham se separado.

— Ela se separou antes de ele morrer, né?

— Sim.

***

LOCAL: REDAÇÃO

Telefonema 1

A assessora atende lá do outro lado, em Brasília.

— Oi, aqui é de Porto Alegre. Falei antes com a tua colega, a Fulana. Ela está?

— Então. Ela saiu para almoçar.

— A que horas ela saiu?

— Então. Era uma e quinze.

— Ela demora para voltar?

— Então, demora uma hora.

— Uma hora? Bah, já são duas e doze, ela deve estar chegando, né?

— Então. Uma hora a partir de agora.

Telefonema 2

— Olá, Fulana?

— Sim.

— Oi, é o André, de Porto Alegre. Conseguiste aquilo que te pedi?

— Ãh… ah…

— Das ambulâncias e tal…

— Ah, sim. Peraí… é que…

— ?

— Então, não consegui ainda, não.

— Tem alguém com quem eu possa falar que saiba disso?

— Então. Pois é, tem sim. Ele estava aqui na minha frente agora mesmo. Mas saiu.

— Saiu? Mas está aí ainda? Não tem como chamá-lo?

— Então. Ele deu uma saída, não sei se vou conseguir falar com ele.

— Putz. Bah, mas ele não está  por perto? Não tem um jeito de falar com ele?

— Então. Eu vou tentar, tá? Mas não sei se consigo.

***

LOCAL: RUAS DO BAIRRO JARDIM LINDOIA, ZONA NORTE DE PORTO ALEGRE

AS PAUTAS: OBRAS DO DEP NA AVENIDA PANAMERICANA E MASCOTES DE MORADORES

— O senhor sabe da obra do DEP?

— Obra do DEP? Não.

— Vai passar ali pela Panamericana, aí vai entrar pela Manágua, bem na frente do seu prédio, e depois seguir pela Costa Rica. Vão abrir tudo. Seis meses de obra.

— Seis meses? Bah. Já estamos com uma obra aqui no prédio faz um ano. Mais essa, não vai fazer diferença.

— Ah, é? Bom, qual o seu nome?

— Meu nome? Por que tu queres o meu nome?

— Já falei com vários moradores. Todos me deram o nome. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Putz. Tá bem. Beltrano.

— Beltrano. E o sobrenome?

— Sobrenome também? Pô, aí fica difícil.

— Por que difícil? Já falei com vários moradores. Todos me deram o sobrenome. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Bah, sobrenome… bom, tá bem. Silva.

— Idade?

— Minha idade? Para quê?

— Porque eu já falei com vários moradores. Todos me deram a idade. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Não sei, isso de idade, acho que não precisava botar. Eu tenho 58.

— E a sua profissão?

— Ah, mas aí tu queres me matar, né? Profissão não, né.

— Por que não? Já falei com vários moradores. Todos me disseram a profissão deles. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Não queria que isso aparecesse, sabe, tá um rolo aqui no prédio, não consigo nem pensar nisso direito…

— Seu Beltrano, todos os moradores que deram depoimento sobre a obra me informaram a profissão.

— Eu não queria, sabe, tá um rolo isso aqui. Mas então bota aí que eu sou aposentado.

— Certo. Ãhm.. Olha só. Posso agora fazer uma foto sua?

— Quê? Foto? Tá louco. De jeito nenhum.

— Por que não? Já falei com vários moradores. Todos me deixaram fazer foto. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Não, mesmo. Não quero. Tá bem?

— Bah, sério? Putz, achei seu depoimento interessante, essa história de já ter uma obra há um ano no prédio. Tinha que ter uma foto para ilustrar a matéria. Os outros moradores…

— É, mas não quero não, tá bem?

Aí eu olhei para o cão do cara, que tinha surgido da garagem.

— Posso fazer então uma foto do seu cão?

— QUÊ??? COMO ASSIM?