Aqui tudo termina.
Foi em uma noite inexpressiva que ela ressurgiu. No meio de um clipe do Manu Chao e do Yeah Yeah Yeahs, ouvi a melodia marroquina. Não parecia estranha, não era nada estranha, tinha passado por audições diárias por anos e anos. Na hora, tudo voltou à cabeça e aos ouvidos: os cheiros dos dias, os sons da época, as cores das ruas. Recuperei tudo que havia sentido naqueles anos e não entendi o porquê de tê-la odiado. Talvez tenha sido para tirá-la do interior dos ouvidos, onde construíra uma parede à prova dos demais sons. Esmaguei os ressentimentos e sorri. Havia ficado aquela doce dorzinha, somente isso, de ter esquecido uma bela letra que se sabia de cor.
Ouvi tantas músicas naqueles anos que as do passado sumiram. Morreram no limbo. Como se fosse a troca do vinil pelo CD. Mais adiante vai existir um CD que terá dezenas de vezes mais capacidade de armazenamento do que um DVD atual. É o Renascimento às avessas, com as gordinhas cada vez mais magras.
Odeio essa música, essa música que eu adorava porque seus acordes eram diferentes dos outros. A música que dura para sempre não existe, a não ser que seja tocada no inferno, ainda que digam haver aquela que nunca deixa de ser escutada. Acho que. no fim, dá para gravar um CD completo com todas que precisam viver para sempre, e talvez falte espaço até para aquelas que nunca se ouviu e que, se tivesse sido assim, entrariam no disco.
Havia aquela coisa de inconscientemente criar um ambiente inóspito. Deletar MP3, arranhar discos, ouvir rádio, assistir à MTV, tudo menos voltar a apreciar a música, aquela música. Ela não era ruim, a banda compôs a música de sua vida. Ainda assim, ela foi causando enjôo. Deixou de ser apertado o play. Se não fosse um mero programa de computador ou uma faixazinha de CD, mofaria ou criaria teias de aranha. “Mero programa de coputador”? “Faixazinha de CD”? Quem diria. Não teria sequer pensado assim quando baixou o MP3. MP3 que ressaltava o certo accent que tinha o inglês da cantora.
A estava ouvindo pela terceira vez naquele dia. Uma de manhã, uma à tade, uma à noite. Ainda pegava alguns acordes diferentes, uns estalos do chipô, uma curva nos metais, um toque ainda não percebido da palheta na corda do violão. Mas ultimamente estava sendo difícil captar sons diferentes daqueles que a mente aguardava na decoreba, adiantando em segundos o que os músicos tocavam, causando, vez por outra, sorrisos. O sotaque marroquino aos poucos, porém, e isso era o que ainda se mantinha inconsciente, tinha virado nada mais do que um jeito diferente de cantar em inglês.
A estava ouvindo pela décima vez naquele dia. A música tinha se tornado parte do corpo, material necessário para a vida, como a água diária, o trabalho que sustenta, a comida. E ainda fazia rir, mesmo com as repetições, que, apesar de serem repetições, tinham sempre um estalinho novo nos pratos de ataque, uma vibração atônica nas cordas do baixo, um jeito diferente de dizer uma palavra pela vocalista. Aquele sotaque marroquino que era uma delícia.
A estava ouvindo pela vigésima vez naquela noite. Ligava o computador só para ouvir a música. Ficava sentado na cadeira de olhos fechados, escutando, imaginando como seriam os integrantes da banda, que tiques a vocalista teria, que caras faria o guitarrista, que manias teria o baterista, enfim, como seria essa banda marroquina. Cada milésimo da música era uma novidade, o jeito de pronunciar “the little joy”, naquela frase travada de um inglês tosco tão atraente. As horas passavam assim, como nuvens de perfume.
Ouviu a música e enfim definiu que gostava daquilo. Era diferente, tinha o que sempre gostou, o jeito alternativo, inglesão, mas agora estava aquela coisa indescritível e surpreendente que era mais do que uma voz sensual marroquina, ou seja lá de que diabos de lugar era aquilo, hahahaha! E as batidas no bumbo? O que era aquilo? O peso e a melodia juntos como se fossem uma parede sonora, quase palpável. Risos, era nisso que resultavam as análises absurdas daquele caos sonoro.
Não, não e não. Não podia gostar daquilo. Era tão estranho, diferente de tudo. Ouviu uma vez e chega. Só que ficou tudo martelando na cabeça. Em casa, cantava a melodia. Errado, mas aos poucos formando uma interpretação própria que foi tornando a música atraente. E se… e se… tivesse mesmo uma distorçãozinha aqui? E se… e se… a vocalista dissesse “joy” de um jeito menos afetado? Afinal, de onde era essa gente? No Google, achou uma referência perdida. Uma só, assim, como se aquela banda tivesse sido montada só para ele.
Eram do Marrocos.
Aqui tudo começa.