Novembro 6, 2009

Não-ficção 2

LOCAL: REDAÇÃO

— Ciclana?

— Sim?

— Tudo bem? Tô ligando sobre o material aquele do santo. É uma mão dele que vem da Itália para ser exposta, é isso?

— Não é só a  mão. É desde o cotovelo.

— Ah. O antebraço.

— É. Foi a única parte que sobrou do santo.

— Ah, é?

— Sim. Mas está bem inteira. Parece até que foi cortada ontem!

***

LOCAL: REDAÇÃO

Ao telefone, estreia no Obituário.

— A sua mãe tinha marido? Quer dizer, ela era casada?

— Sim, foi casada. Ele já morreu. Mas eles tinham se separado.

— Ela se separou antes de ele morrer, né?

— Sim.

***

LOCAL: REDAÇÃO

Telefonema 1

A assessora atende lá do outro lado, em Brasília.

— Oi, aqui é de Porto Alegre. Falei antes com a tua colega, a Fulana. Ela está?

— Então. Ela saiu para almoçar.

— A que horas ela saiu?

— Então. Era uma e quinze.

— Ela demora para voltar?

— Então, demora uma hora.

— Uma hora? Bah, já são duas e doze, ela deve estar chegando, né?

— Então. Uma hora a partir de agora.

Telefonema 2

— Olá, Fulana?

— Sim.

— Oi, é o André, de Porto Alegre. Conseguiste aquilo que te pedi?

— Ãh… ah…

— Das ambulâncias e tal…

— Ah, sim. Peraí… é que…

— ?

— Então, não consegui ainda, não.

— Tem alguém com quem eu possa falar que saiba disso?

— Então. Pois é, tem sim. Ele estava aqui na minha frente agora mesmo. Mas saiu.

— Saiu? Mas está aí ainda? Não tem como chamá-lo?

— Então. Ele deu uma saída, não sei se vou conseguir falar com ele.

— Putz. Bah, mas ele não está  por perto? Não tem um jeito de falar com ele?

— Então. Eu vou tentar, tá? Mas não sei se consigo.

***

LOCAL: RUAS DO BAIRRO JARDIM LINDOIA, ZONA NORTE DE PORTO ALEGRE

AS PAUTAS: OBRAS DO DEP NA AVENIDA PANAMERICANA E MASCOTES DE MORADORES

— O senhor sabe da obra do DEP?

— Obra do DEP? Não.

— Vai passar ali pela Panamericana, aí vai entrar pela Manágua, bem na frente do seu prédio, e depois seguir pela Costa Rica. Vão abrir tudo. Seis meses de obra.

— Seis meses? Bah. Já estamos com uma obra aqui no prédio faz um ano. Mais essa, não vai fazer diferença.

— Ah, é? Bom, qual o seu nome?

— Meu nome? Por que tu queres o meu nome?

— Já falei com vários moradores. Todos me deram o nome. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Putz. Tá bem. Beltrano.

— Beltrano. E o sobrenome?

— Sobrenome também? Pô, aí fica difícil.

— Por que difícil? Já falei com vários moradores. Todos me deram o sobrenome. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Bah, sobrenome… bom, tá bem. Silva.

— Idade?

— Minha idade? Para quê?

— Porque eu já falei com vários moradores. Todos me deram a idade. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Não sei, isso de idade, acho que não precisava botar. Eu tenho 58.

— E a sua profissão?

— Ah, mas aí tu queres me matar, né? Profissão não, né.

— Por que não? Já falei com vários moradores. Todos me disseram a profissão deles. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Não queria que isso aparecesse, sabe, tá um rolo aqui no prédio, não consigo nem pensar nisso direito…

— Seu Beltrano, todos os moradores que deram depoimento sobre a obra me informaram a profissão.

— Eu não queria, sabe, tá um rolo isso aqui. Mas então bota aí que eu sou aposentado.

— Certo. Ãhm.. Olha só. Posso agora fazer uma foto sua?

— Quê? Foto? Tá louco. De jeito nenhum.

— Por que não? Já falei com vários moradores. Todos me deixaram fazer foto. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

— Não, mesmo. Não quero. Tá bem?

— Bah, sério? Putz, achei seu depoimento interessante, essa história de já ter uma obra há um ano no prédio. Tinha que ter uma foto para ilustrar a matéria. Os outros moradores…

— É, mas não quero não, tá bem?

Aí eu olhei para o cão do cara, que tinha surgido da garagem.

— Posso fazer então uma foto do seu cão?

— QUÊ??? COMO ASSIM?

Outubro 28, 2009

Não-ficção

LOCAL: UM BPM DA BRIGADA MILITAR

— Então, major, o problema…

(Toca o celular do oficial.)

— Com licença. Alô? Ãhn? VÃO TOMAR NO CU TODOS VOCÊS!

***

LOCAL: REDAÇÃO

(Toca o telefone.)

— Redação.

— Alô! Eu tô aqui em Alvorada. Mais tarde vou pra Porto Alegre, sabe que ninguém lá quer outro no meu lugar, né? Eu sou vigia da rua há muitos anos. Não querem trocar.

— Ah. Seu Fulano. Eu sei. Mas hoje não vai dar. Vamos marcar a entrevista para…

— Olha, sabe que eu também sei tocar gaita? Fiz uma música. Escuta só.

(Floin-fo-fo-fo-fo-florofofo-floin-floin-floin…)

***

LOCAL: PRÉDIO EM UMA AVENIDA DA CAPITAL

— Eu queria subir lá no último andar para tirar uma foto da casa abandonada que fica aqui em frente. Pode ser?

— Vamos lá.

(Uns 12 andares passam pelo elevador.)

— Bah. Mas isso aqui é  o TELHADO do prédio.

— Sim. Vem até aqui.

— Bah, não dá, é muito alto. Vou fazer a foto daqui.

— Daí? Como assim? VAI FICAR UMA MERDA!

— ?

— VEM ATÉ AQUI!

— Não, não vou não.

— TUA FOTO VAI FICAR UMA MERDA!

***

LOCAL: REDAÇÃO

— Alô, Fulano?

— Não, é a mulher dele.

— Ele pode atender?

— Não. Ele tá dirigindo.

— Bom, eu ligo depois então…

— Peraí. Haha. Olha só, é um rrr-ru-ro (interferência na ligação)

— Como?

— Um rrr-ru-ro (interferência outra vez)! Hahahaha!

— Não estou entendendo, senhora.

— Hahahaha! É um buuuurro! Hahaha!

— Um burro?

— Sim! Hahahahaha! Tem um burro pastando aqui! Hahahaha!

— ???

— É um burro igual ao do Shrek! Hahahahaha!

***

LOCAL: REDAÇÃO

— Quantos anos completa o Mercado, hein?

— Cento e quarenta anos. É mais antigo do que Porto Alegre.

— Quê?

— Sim. Porto Alegre nem existia ainda e já tinham feito o Mercado.

***

LOCAL: UMA MERCEARIA DA CAPITAL

— E o que os teus clientes mais compram?

— Ah, muita coisa, principalmente produtos de limpeza.

(Entra um cliente. Ele pega uma garrafa de plástico.)

— Vou levar essa água sanitária.

— Viu só? — diz o proprietário, olhando para mim, sorridente.

— Eu também quero um joguinho.

Os olhos do dono se arregalam. Um funcionário leva o cliente até um canto e o último faz uma fezinha no jogo do bicho. O proprietário se volta para mim:

— Bah, não bota isso, né? Todo mundo faz. E eu nem ia te contar.

***

LOCAL: REDAÇÃO

— E quando é que começaram as obras?

— Quando começaram? Isso não importa. Eu até já esqueci. Foi em mil quinhentos e pouco.

— ?

— Isso não é pra botar. Vai lá e faz uma foto.

— Como?

— Faz uma foto. Quanto custa uma foto no jornal? Quanto é?

— Não é nada.

— Cem reais tá bom?

***

LOCAL: SALÃO DE FESTAS DE UM CLUBE DA CAPITAL

— Preciso fazer uma foto da senhora, pode ser?

— Já vamos. Sabe que eu fui diretora do colégio Beltrano da Silva?

(A mulher segura meu braço pela camisa.)

— Ãh, não.

— Também fui para os Estados Unidos e lá eu era tal coisa.

(Um jovem sobe ao palco e começa a sortear prêmios. Tira um nome.)

— André Mags.

Olho para o palco. Parece que disseram meu nome.

— André Mags — o cara repete.

— Opa, sou eu — dou meia-volta e pff, a mulher está me segurando.

— Mais uma vez. André Mags?

— Bah, sou eu, ei, eu!

A mulher não solta. Meu nome volta para o saco de onde tinha saído.

— André Mags não está presente.

***

LOCAL: INCÊNDIO EM UMA FARMÁCIA NO CENTRO

— Ei, bombeiro! Esse cheiro aí, o que que tá quimando?

— Ahmnhm… Viagra. Hahahaha!

— O véio que estiver fracote pode chegar ali e dar uma aspirada, então? Hahahaha!

— Aham! Hahahaha!

***

LOCAL: PLANTÃO DE DOMINGO NA REDAÇÃO

— Alô, redação.

— Boa noite. Eu não quero me identificar, mas tem algo estranho ocorrendo em Brasília.

— Sim? O que é?

— Eu ligo, ligo, ligo para a Polícia Federal e ninguém atende.

***

Outubro 23, 2009

No gods, no masters = livre-arbítrio

Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele creem, disse José Saramago. Não lembro dos meus ídolos, talvez nunca tenha tido. Pensava idolatrar Kurt Cobain, mas se isso fosse verdade, teria ido ver o show deles no Hollywood Rock. Estava de férias, tinha uma grana. Não fui.

O que lembro, isso sim, é do João Gordo respondendo a uma pergunta do Serginho Groisman no antigo programa Matéria Prima, da Cultura.

- João, quais os teus ídolos?

- No gods, no masters.

Nem por isso idolatraria o vocalista do Ratos de Porão. (Se é para considerar alguém o máximo, considerarei meus amigos.) Também não sinto culpa alguma por ter deixado de ir a Curitiba no show da volta dos Pixies. Agora começou a venda de ingressos para o Franz Ferdinand, que estará por aqui só em março. Não tenho a menor vontade de comprar. Março é longe demais. Fui no Oasis, mas porque estava sem nada melhor para fazer.

E não é só música. O Gay Talese esteve na Flip. Fui? Se estivesse no Rio, até dava uma esticada em Paraty. Viajar ao Rio só por ele? Não. David Lynch palestrou na Ufrgs. Nem mexi o pé. Assisti depois na TVE.

Não passa de  preguiça? Tanto faz. É muito bom não ter deuses ou mestres. É a plenitude do livre-arbítrio.

Outubro 14, 2009

Como se acordasse

Sempre que acordo os segundos passam rápido demais, parecem parte de uma unidade de medida muito mais curta. Consigo alcançar o tempo por volta das 10h.

“Ele se foi”, diz o cara com cabelo rockabilly da banda Glasvegas em um clipe meio preto e branco em um país preto e branco e frio. Se desse, eu estaria contigo na Escócia para tirá-lo da letra dessa música e buscá-lo de volta para ti. Só que ultimamente você fala com sotaque irish e eu invisto no cockney.

— Hey, give me a bee. Now.

Me senti feliz no salão vazio de um restaurante perdido no fim do mundo. Eu escrevia em um laptop e fumava um cigarro. Olhei para o som que vinha das escadas e o fotógrafo apareceu. Pedi uma foto para ele.

— Como se eu fosse Charles Bukowski.

Ele fez estalar o obturador.

Ele se foi, querida, ele se foi. Nas datas de outubro também vou felicitar meu irmão e lembrar do dia 21, em que decidimos ficar juntos. Fiquei mais velho e vou te mostrar na foto. Olha bem para ver como fiquei mais velho.

— Hey, I’m a man, you know?

Quando acordo os segundos passam rápido. É um pedaço do passado que revivo. O passado sempre passa voando por nós.

— Olhei no espelho e pensei: mas eu estou velho — foi o que me disse o velho que encontrei em alguma dessas entrevistas que nós repórteres fazemos.

— E foi nesse momento que você percebeu que estava velho?

— Sim. 

Tudo passa como se estivéssemos acordando.

Setembro 30, 2009

Presídio Central

Depois de dois anos preso por causa de um rolo com o pai de lorde Alfred Douglas, acusado de sodomia, o escritor irlandês termina seu De profundis com um convite ao amante para que se encontrem e diz haver amor, ainda. As últimas palavras são “seu amigo afetuoso, Oscar Wilde”.

Ele é um trouxa ou conseguiu coar tudo para manter de fora a desilusão e sustentar o que restava entre ambos? Envelhecido, com a saúde arrasada pelos anos de prisão e trabalhos forçados, o dândi morreu em Paris.

Wilde fala que as prisões são piores que seus prisioneiros. Estive uma vez no interior do Presídio Central, vi de perto a ala em que não há mais celas, somente cavernas obscuras, vento gelado no inverno entrando pelas janelas destruídas e água da chuva sendo borrifada pelos corredores fedendo a maconha, suor e sujeira. Concordo com o escritor, mas só porque nunca fui sequestrado, ameaçado  de morte ou tive algum familiar nessa situação. Caso contrário, desejaria que apodrecesse no lodo da morte em vida do Central.

Tem uma outra prisão em nós. É a que nos defende, como casas cercadas de muros, grades, cães raivosos, cercas elétricas, arames farpados, cacos de vidro e alarmes múltiplos e trancas cheias de segredos. Estar preso às vezes traz segurança. É fincado nessa propriedade-penitenciária que às vezes a gente se atrela tanto às coisas. E isso serve também para as pessoas para as quais entregamos as chaves e abrimos os cadeados.

É como se a gente achasse que é um bem para outro, e vice-versa. Só que o outro pode ser lorde Alfred Douglas. Ou Oscar Wilde. Ou um pouco de cada. Porque, no fim, ninguém está errado. Somente estamos olhando por detrás de muros, grades, cães raivosos, cercas elétricas, arames farpados, cacos de vidro e alarmes múltiplos e trancas cheias de segredos. E sentindo medo. Muito medo.

Setembro 23, 2009

As coisas que lembram

Passaram dois anos até que eu comprasse um armário para guardar o que havia em sete sacos cheios de recordações espalhados pelo chão desde a última mudança. O conteúdo de dois deles, porém, não coube no espaço disponível. Eram fitas cassete do final dos anos 80 e início dos 90.

Sempre que eu avanço duas esquinas para os lados da Venâncio Aires o perfume de máquinas de lavar entra nas minhas narinas. Umas lembranças infantis são recuperadas no mesmo instante. Visões de água girando com roupas, um apartamento aconchegante, um buraco no box do banheiro feito para espiar para fora.

As fitas perderam o valor como perdeu o valor a fragrância de roupas limpas que me chega da esquina. Aquilo, repetido diariamente, se tornou chato. Deixou de significar água girando com roupas, um apartamento aconchegante. Passou a valer a recordação do escuro do quarto e da aula pela manhã.

Minha avó foi morar no apartamento e não trocou o box. Disse que seria uma recordação do neto. A altura do chão ao buraco não dava meio metro. Agora, ela morreu. Agora, o apartamento foi vendido. Agora não há mais recordação minha naquele lugar.

E aqui estão as fitas. Capas escritas com caneta até com certo capricho, discos raros, shows de Sid Vicious em carreira solo, lados B de The Cure, muitos shows e bandas obscuras como Dada, além de outros detalhes que hoje não passam de besteira.

Uma teoria aposta que os objetos têm memória. “Lembram” de quem cuidou bem deles. Não acredito porque as próprias pessoas não lembram que foram bem cuidadas por outras.

Os sacos aguardam o lixo. Estão no chão do corredore eu não consigo levá-los para baixo, para o lixo seco geral do prédio. Também não quero que fiquem no armário, onde já há recordações demais.

É assim que as coisas param. É assim que ficam no limbo.

Lembro de cada música que há nelas.

E elas não lembram de mim.

Setembro 18, 2009

Heróis

A DC sempre foi mais modernosa e criativa que a Marvel. A Marvel sempre foi mais tradicional que a DC. Acontece que os heróis da DC são mais legais, mas não alcançam tanta projeção como os dinossáuricos da Marvel.

Isso porque li e assisti a Watchmen, comprei a série Crise nas Infinitas Terras, acompanhei a Legião de Super-heróis e o Batman Cavaleiro das Trevas. Momentos incomensuráveis de criatividade e inovação da DC.

Também segui Guerras Secretas, a série do uniforme negro do Homem-Aranha, os X-Men da época da Fênix Negra, a queda de Matthew Murdock. Momentos altos da Marvel que não se equiparam aos da sua rival DC.

Aí listei os heróis mais clássicos de cada editora.

DC: Batman, Robin, Super-Homem, Mulher-Maravilha, Aquaman, Flash, Lanterna Verde, Arqueiro Verde, Shazam, Batgirl, Átomo, Homem-Borracha, Legião de Super-heróis, Novos Titãs, Monstro do Pântano, Superboy.

Marvel: Homem-Aranha, Thor, Capitão América, Hulk, Surfista Prateado, Quarteto Fantástico, X-Men, Príncipe Submarino, Homem de Ferro, Vingadores, Motoqueiro Fantasma, Demolidor, Luke Cage, Nick Fury, Capitão Marvel, Conan, Mestre do Kung Fu, Punho de Ferro, Doutor Estranho.

Não sou DC nem Marvel.

Seria Badger, o Texugo. Ou Dread Star.

É uma bela mentira, uma negação perfeita dizer que não tenho medo de Galactus. Vivo às vezes como se fosse o Cavaleiro da Lua. Isso tudo não passa de balela.

Sou apaixonado por uma bandida russa. Fiquei arrasado como se fosse uma lesma jogada ao mar na primeira vez em que vi Natasha Romanoff. Toda a tentação de quem quer se aproximar mas sabe que ela é fatal, ela é a Viúva Negra. Quando a tiver, ela me arrancará a cabeça e a comerá como se fosse uma louva-a-deus copulando.

Por isso, me afasto das páginas de Superaventuras Marvel. Sei que ela está lá, nua, cheia de curvas e com sotaque do Leste Europeu.

Mandrake não faz magias como o Doutor Estranho. Comete somente ilusões de ótica. Zagor é um chato. Tex tem sorte. Martin Mystère tem inteligência. David Dunn é como seria um super-herói no mundo real. Ele é a sinceridade.

Não sou um herói.

Setembro 9, 2009

Sorrisos que refletem um sol amarelo e bom

Vejo antigos clipes pelo YouTube para não esquecer. Tem uns de bandas gaúchas em que aparecem pessoas conhecidas congeladas no tempo e que ficarão para sempre assim porque nunca mais as verei. A não ser se procurar por elas. O que quase nunca faço.

Meu avô nada faz para lembrar. Ele deve perceber que o mundo é estranho hoje, as pessoas falam de um jeito que ele não entende mais, o que sai no jornal está ficando cada vez mais distante da sua percepção. Ele não reconhece o bisneto. Ele tem mais de 90 anos e desenvolve em seu organismo um câncer que não será curado porque a previsão é de que morra antes, naturalmente.

Escolho os clipes um a um e nem todos servem. Há um motivo para isso. É algo que faça recordar. Algo que me deixe menos duro nesta noite. Algo que me toque e emocione.

Meu pai diz que a natureza é sábia por fazer o vô esquecer. Se chegasse ao ponto em que o vô está, brinca que se mataria com um tiro na cabeça. Só que, se estivesse como o vô, não se daria conta de pegar uma arma.

Então vejo uma menina em um dos clipes. É alguém que conheci. Busco alguma foto recente. Hoje se encontra tudo no Google.

Brinco que se fosse como o vô não ficaria a esmo, sem fazer nada, ou jogado na cama, ou sentado em uma poltrona tentando decifrar alguma notícia de jornal ou fingindo que escuta o rádio ou a tevê. Instalaria um videogame e passaria o tempo eliminando zumbis na tela. Mas ele nunca jogou videogame. E se eu ficar velho como ele, vou ainda querer jogar videogame? Ainda vou saber o que é um videogame?

Acho fotos da menina. Junto dela há outra garota, essa muito bonita. Elas vivem juntas e longe, com sorrisos de felicidade. Sorrisos que refletem um sol amarelo e bom. Um sol molengo e lento.

Aqui o sol é duro e compacto. Ele desce com cauda de vento e sobe largando água. Nesse meio-tempo, busco no Google algumas imagens, caço no YouTube clipes antigos. Quero algo que me toque, que me deixe emotivo. Isso porque os raios de sol são duros e nos deixam todos duros.

É bom amaciar um pouco às vezes para nunca ter medo da emoção.

Agosto 27, 2009

Anêmicos

É hora de comer ópio. Assim como faziam Thomas de Quincey e outros. Naquela vida miserável de fome, o escritor britânico passou a usar a droga para suportar as dores no estômago.

Foi o mesmo com Kurt Cobain. As dores estomacais se diluíram com a heroína.

I’m on warm milk and laxatives
Cherry-flavored antacids

Cantou assim o vocalista do Nirvana em Pennyroyal Tea.

Hoje vi uma mulher corcunda carregando um saco pesado. Ela passou por um lixeiro triste. Olhou para ele, olhou para o saco e  se aproximou.

— Quer feijão? Está muito pesado para eu levar.

O homem sorriu, pegou o saco, agradeceu e ela foi embora. Atrapalhado, não sabia onde colocar o presente. Ficou com ele em uma mão.

Não havia dor física.

Havia sim uma dor que não passa com ópio nem heroína.

I’m so tired I can’t sleep
I’m a liar and a thief
Sit and drink pennyroyal tea
I’m anemic royalty

Sit and drink Pennyroyal Tea
Distill the life that’s inside of me
Sit and drink Pennyroyal Tea
I’m anemic royalty

Agosto 15, 2009

No fundo da estante, Depardieu

Eles escasseiam, logo mais terei de comprar novos - talvez antes da Feira do Livro, pela primeira vez na vida. Sobraram umas coisas estranhas. Tipo O diário secreto de Laura Palmer (como fui comprar isso?), Oscar Wilde por ele mesmo (só sendo muito fã para adquirir esse), Carmen Silva, a dama dos cabelos prateados (toco da época em que cobri a 50ª Feira do Livro) e mais uns que outros que não davam vontade de tirar da prateleira.

Mas a necessidade fez a mão buscar o empoeirado Cartas roubadas. Autor? Gérard Depardieu. É, o ator.

Do nada, entrei no Orkut para ver uns perfis de pessoas sobre as quais não sei mais de nada há séculos. Achei um monte de gente com filhos, casadas, gordas ou envelhecidas.

Duas coisas chamaram a atenção. O ator francês fazia parte de uma gangue quando era jovem e ele escreve uma frase que me deu certa inveja: “Eu nunca soube o que é o trabalho. Nunca me senti como se estivesse trabalhando”. Só deu inveja porque em átimos algumas vezes já senti o mesmo que ele, algo como “estão me pagando para escrever? Escrever?”, eu sei como é.

Aí tocavam coisas como Glasvegas, Franz Ferdinand, Inger Lorre e Frank Black, e comecei a ficar melancólico. Não sei se por todo aquele pessoal estar miseravelmente mais velho do que eu ou se porque eu não tenho filhos e casamentos como eles.

O Depardieu escreveu uma carta para sua mãe, Lilette. O texto parece uma conversa dele com ela. Tive a impressão de que eram muito próximos. Aí termina a carta e ele revela que ela está morta. Naquela hora, relendo trechos iniciais, percebi que ele estava melancólico.

Entrei nas configurações e desmarquei a opção “mostrar/ocultar visitas de perfil”. Não queria entrar na vida daquelas pessoas e deixar rastros. Não queria incomodar. Para um deles deixei uma vez um recado meio que assim: “E aí, cara, quanto tempo! Quem sabe vamos tomar uma cerveja?”. Nunca foi respondido. Nunca mais voltei a escrever a ele. Não me mexo para mudar algumas coisas.

Agora começou a tocar Por que te vas?, saca? É trilha daquele filme, Cría cuervos, do Carlos Saura, saca? Meu Windows Media Player está com uma configuração que, se deixar, ele vai tocando as músicas uma por uma, sem parar. Não me mexo para mudar algumas coisas.

O Depardieu fala mal de Marco Ferreri, bem de François Mitterrand, desabafa com belas palavras, muitas vezes engraçadas, outras, emocionantes, e sempre expondo o coração. No fim, foi surpreendente abrir esse livro. O francês narigudo escreve bem.

Céus, agora toca What if God was one of  us. Se ele existisse e fosse um de nós, creio que teria vários amigos no Orkut. Ele convidaria os amigos antigos, tipo os apóstolos, para tomar uma cerveja com ele, ou melhor, um vinho, e os 12 responderiam. Fariam uma ceia dos diabos, uma festa epopéica que seria eternizada não em foto, coisa que esse pessoal da antiga não curte. Iam botar um tal de Leonardo para pintar um quadro da galera enchendo o bucho de fondue e vinho no restaurante de um shopping.

Agora toca Além do horizonte, versão do Jota Quest. Jota Quest? É, eu tenho isso em MP3. Juro que é só esse som que tenho dessa bosta de banda.

Deixe eu ser sincero como o Depardieu.

E não recuse uma cerveja comigo.