LOCAL: REDAÇÃO
— Ciclana?
— Sim?
— Tudo bem? Tô ligando sobre o material aquele do santo. É uma mão dele que vem da Itália para ser exposta, é isso?
— Não é só a mão. É desde o cotovelo.
— Ah. O antebraço.
— É. Foi a única parte que sobrou do santo.
— Ah, é?
— Sim. Mas está bem inteira. Parece até que foi cortada ontem!
***
LOCAL: REDAÇÃO
Ao telefone, estreia no Obituário.
— A sua mãe tinha marido? Quer dizer, ela era casada?
— Sim, foi casada. Ele já morreu. Mas eles tinham se separado.
— Ela se separou antes de ele morrer, né?
— Sim.
***
LOCAL: REDAÇÃO
Telefonema 1
A assessora atende lá do outro lado, em Brasília.
— Oi, aqui é de Porto Alegre. Falei antes com a tua colega, a Fulana. Ela está?
— Então. Ela saiu para almoçar.
— A que horas ela saiu?
— Então. Era uma e quinze.
— Ela demora para voltar?
— Então, demora uma hora.
— Uma hora? Bah, já são duas e doze, ela deve estar chegando, né?
— Então. Uma hora a partir de agora.
Telefonema 2
— Olá, Fulana?
— Sim.
— Oi, é o André, de Porto Alegre. Conseguiste aquilo que te pedi?
— Ãh… ah…
— Das ambulâncias e tal…
— Ah, sim. Peraí… é que…
— ?
— Então, não consegui ainda, não.
— Tem alguém com quem eu possa falar que saiba disso?
— Então. Pois é, tem sim. Ele estava aqui na minha frente agora mesmo. Mas saiu.
— Saiu? Mas está aí ainda? Não tem como chamá-lo?
— Então. Ele deu uma saída, não sei se vou conseguir falar com ele.
— Putz. Bah, mas ele não está por perto? Não tem um jeito de falar com ele?
— Então. Eu vou tentar, tá? Mas não sei se consigo.
***
LOCAL: RUAS DO BAIRRO JARDIM LINDOIA, ZONA NORTE DE PORTO ALEGRE
AS PAUTAS: OBRAS DO DEP NA AVENIDA PANAMERICANA E MASCOTES DE MORADORES
— O senhor sabe da obra do DEP?
— Obra do DEP? Não.
— Vai passar ali pela Panamericana, aí vai entrar pela Manágua, bem na frente do seu prédio, e depois seguir pela Costa Rica. Vão abrir tudo. Seis meses de obra.
— Seis meses? Bah. Já estamos com uma obra aqui no prédio faz um ano. Mais essa, não vai fazer diferença.
— Ah, é? Bom, qual o seu nome?
— Meu nome? Por que tu queres o meu nome?
— Já falei com vários moradores. Todos me deram o nome. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…
— Putz. Tá bem. Beltrano.
— Beltrano. E o sobrenome?
— Sobrenome também? Pô, aí fica difícil.
— Por que difícil? Já falei com vários moradores. Todos me deram o sobrenome. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…
— Bah, sobrenome… bom, tá bem. Silva.
— Idade?
— Minha idade? Para quê?
— Porque eu já falei com vários moradores. Todos me deram a idade. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…
— Não sei, isso de idade, acho que não precisava botar. Eu tenho 58.
— E a sua profissão?
— Ah, mas aí tu queres me matar, né? Profissão não, né.
— Por que não? Já falei com vários moradores. Todos me disseram a profissão deles. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…
— Não queria que isso aparecesse, sabe, tá um rolo aqui no prédio, não consigo nem pensar nisso direito…
— Seu Beltrano, todos os moradores que deram depoimento sobre a obra me informaram a profissão.
— Eu não queria, sabe, tá um rolo isso aqui. Mas então bota aí que eu sou aposentado.
— Certo. Ãhm.. Olha só. Posso agora fazer uma foto sua?
— Quê? Foto? Tá louco. De jeito nenhum.
— Por que não? Já falei com vários moradores. Todos me deixaram fazer foto. Eu estou fazendo uma matéria blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…
— Não, mesmo. Não quero. Tá bem?
— Bah, sério? Putz, achei seu depoimento interessante, essa história de já ter uma obra há um ano no prédio. Tinha que ter uma foto para ilustrar a matéria. Os outros moradores…
— É, mas não quero não, tá bem?
Aí eu olhei para o cão do cara, que tinha surgido da garagem.
— Posso fazer então uma foto do seu cão?
— QUÊ??? COMO ASSIM?



