Julho 25, 2008
A cura
Pessoas que pedem como Robert Neville pediu: “Parem, eu tenho a cura”. Mas não são ouvidas. O sol brilhou atrás de uma criança e fez sombra sobre mim, refletindo tudo em um vidro grande. Vi nos fios escuros entre os raios de sol que passavam por uma árvore à beira do lago os mortos-vivos que atacavam Neville, sem dar-lhe ouvidos, sem querer a cura. Isso cheira a espírito adolescente, que senti em 1994, e hoje é 2008. E hoje minha idade é maior do que a de Kurt Cobain. E o tamanho da criança já fazia sombra suficiente para encobrir o sol.
Tive o desejo de entrar naquele lugar úmido, sujo e escuro para enfrentar os mortos-vivos. (Mas só se eles não forem fortes nem rápidos nem espertos.) E depois pegar o carro com pessoas que não conheço para conversar. (Mas só se elas falarem primeiro.)
Alguém te pede coisas como se fosse Robert Neville?
Me joguei contra o vidro. Uma parede transparente que impede a propagação do som. Só se vê as bocas mexendo e o barulho duro do choque do ombro putrefato contra o vidro. Parece difícil ser um morto-vivo jogando-se contra um vidro ultra-resistente. Sem ouvir nunca nada que a pessoa do outro lado tem a dizer. Sabendo que vai conseguir quebrá-lo em algum momento.
Na verdade, isso não é difícil.
“Pare, eu tenho a cura.”



