Julho 13, 2009

Preso ao chão da cidade

Tem horas em que o mundo para de rodar e ficamos parados. Não me sinto bem assim, fincado no chão, sem poder fazer movimentos. É preciso um bombardeio para fazer tudo voltar a girar.

Uma hora pareceu ser legal ser Mad Max, cruzar a Austrália de V8. Só que Mad Max só existe depois que Jesse e o filho de ambos foram mortos.

Não quero ter um filho igual a Ben Lovatt. David e Herriet passaram o inferno por causa dele.

Nem Max nem Lovatt. A eterna insatisfação me prende. Mas às vezes também faz mover, bombardeia.

— Em todo lugar de onde eu volto eu moraria — comentei com um colega.

— Isso aqui é interior — ele concordou.

— Interiorzão do mundo.

Na verdade, não importa se é interior. Importa se as coisas seguem em movimento. Pois em busca de movimento mexi no baú das profundezas do disco rígido da minha máquina. Resgatei um passado de dez anos.

Quando você olha para você mesmo de anos atrás, não acredita no que vê. “Pensei que fosse melhor do que é” é uma das considerações, assim como ”é preciso melhorar diversas partes desse texto, quem sabe até mudar tudo”. Não escrevo bem estando preso ao chão, meu coração bate em uma jaula.

Mudar o texto da história da vida parece, às vezes, que seria mais eficiente. Isso, porém, não existe. Existe, pelo menos, o MP3 de Waiting for the rapture, que me serve de bombardeio quando as guitarras começam a berrar nesse tal de Dia do Rock.

Vale ressuscitar coisas do passado para mover o presente?

Estou preso na cidade
Agora são três da manhã e você está comendo sozinho
O coração bate em sua jaula

Julho 5, 2009

A leste do Éden, a oeste de Roma

A leste do Éden e a oeste de Roma, vejo o mar de prédios desde o 16° andar, ainda longe do céu. Há caixas espalhadas pelo apartamento onde durmo em um canto, mas a mudança não é minha. Ou às vezes parece que é.

As pessoas são fragmentos. O que passa delas por nós são pedaços de fragmentos. Eles se colam feito ímãs ou restam no chão como poeira. Seu tamanho reflete sua importância.

Aqui, a oeste de Roma e muito distante do Éden, esqueci do mundo que queria esquecer por um tempo. Volto agora tendo de lembrar de todo ele, inteiro com seu conjunto de fragmentos. E de novo, sempre em mente aquilo que me levou a oeste de Roma, a leste do Éden: sou pó, sou um pedaço que não passa de poeira.

Junho 25, 2009

O retrato

Ainda lembro das coisas que quero esquecer. Das que quero lembrar, esqueço. A regra diz que leva dez anos para que esses teoremas se invertam. Posso garantir que existe exceção à regra.

As mulheres engravidaram, os homens criaram vincos, vínculos e barrigas. Eu continuei com as marcas por dentro, não por fora, como eles. Feito um Dorian Gray.

Existe um sonho recorrente. Eu encontro comigo mesmo. Acordo sem lembrar do que fiz comigo.

É que nunca lembro tudo o que sonhei.

Ao mesmo tempo, vivo em sonho.

O que mais temo é destruir o retrato que envelhece por mim.

Junho 19, 2009

A pequena felicidade

Felicidade só é real quando compartilhada. Christopher McCandless escreveu isso no momento em que sentiu a maior solidão da sua vida. Ele estava envenenado, pronto para morrer isolado em um ônibus caindo aos pedaços no Alasca. Deu o último suspiro um dia depois do meu aniversário em 1992.

Um pensamento me fez voltar atrás, e o rio não estava cheio demais para atravessar. Era o último ano do Segundo Grau e passei minha prova de matemática para meu colega da frente. Eu precisava tirar dez. Consegui. Aliás, ele conseguiu. Não fiquei preso naquela ilha de gelo em Stampede Trail. Cruzei para o outro lado e caminhei. Normalmente, sozinho.

Gostaria de ficar no meio de um deserto com uma comunidade hippie que vive em trailers no oeste americano e montar uma barraquinha com livros. Os motoristas que passam pela rodovia parariam para comprar Jack London ou Henry Thoreau. E aí eu ia gostar da menina com o violão, que me olharia com olhos singelos de paixão e de admiração, e ela diria, encabulada: “Eu gosto de ler”. E compartilharíamos as histórias dos livros.

Eis que nem estou no deserto. Não faz calor, faz frio. Um frio que deixo lá fora porque não baixo a persiana e acostumei a ver o dia nascer quando acordo no meio das horas entre meia-noite e cinco para mijar. A janela fica gigantesca com as cores mornas e mortas das profundezas da madrugada. Falo comigo mesmo quando faço um chá, abro uma caixa de bombons, assisto a um DVD.

E no fim mais um dia passa e o que há é essa pequena felicidade da liberdade solitária que dura algumas horas e muitas vezes vale muito mais do que estar no meio da sociedade. Society, society, society, clamava McCandless.

 Suspiro às 5h50min, quando chega o carro que me busca. Tem vezes que não quero ver pessoa alguma. No máximo um urso, um alce ou pássaros do frio.

Mas disso ninguém sabe.

Isso não é compartilhado.

Junho 15, 2009

Somos Nancys e Herbs fugindo de Dicks e Perrys

Às vezes olho para as pessoas e vejo Dick e Perry trucidando a família Clutter no distante Kansas de 1959. E no meio de uma festa com centenas de pessoas todas são Dick e Perry. Para sobreviver no meio daquela música que reflete 1959 é preciso uma certa dose de marguerita e alguns copos de cerveja.

Você chegou em casa tonta e perdemos tempo.

Os Dicks e Perrys passam pelo corredor com a intenção de tocar nos nossos ombros e fazer sacudir a bebida. Eu encontro Nancys e Herbs e todos os outros que também são vítimas de Dicks e Perrys e ali discutimos como escapar. A maior parte do tempo as Nancys e os Herbs discutem como escapar dos Dicks e Perrys.

E nessa discussão interminável me perco de você e perdemos tempo.

Tão logo chegue o fim do mês estarei um tanto longe, em fuga de Dick, em fuga de Perry. Por causa do Airbus pensei em tomar um ônibus, mas seriam 18 horas de viagem. Isso é uma travessia semelhante à que fizeram Dick e Perry para deixar Holcomb, a cidade onde deixaram seu legado de carnificina.

E lá passarei cinco dias e perderemos tempo.

E no fim só fujo. Fujo de Dick, fujo de Perry. E quando abro teu presente sinto aquele esmagamento do inesperado. E aí eu tenho que fugir para a rua e correr o risco de encontrar quem? Dick e Perry.

Só que na fuga não encontro ninguém, somente um presente para você e um pouco de tempo perdido.

Porque no fundo essa corrida toda contra o tempo parece que tem a intenção de justamente fazer com que o relógio corra.

Enquanto fujo de Dick e Perry, me parece que você está ficando para trás também, como se fossem os ponteiros indicando os segundos do passado, de 1959, por exemplo. Mesmo que eu busque você.

E encontre.

Em uma casa de campo de Holcomb, no Kansas, em 1959.

Junho 8, 2009

A roupa sobre o cabideiro

Cada vez que giro a chave observo a quilometragem e tenho certeza de que marca mais do que da última vez. O carro não tem alarme e todo mundo no prédio tem o controle do portão automático. Ou então é aquela minha roupa que fica pendurada há meses sobre um cabideiro de chão.

As explicações são de casos aparentemente sem ligação. Sinto uma canseira diária que normalmente acaba em um cochilo sem querer ou por querer. Às vezes imagino que a roupa escura mudou de lugar depois que acordei.

O ápice foi a gripe estranha que não parecia gripe. Doíam as juntas, era um cansaço de esforço físico. Enquanto isso, o nariz estava seco, não escorria. Quando começaram as tosses, as dores nos joelhos e braços já haviam passado.

Algumas pessoas que me atemorizam desapareceram. Especialmente o consumidor de crack ouvido em uma pauta por aí e que descobriu onde eu moro. Dia desses, encontrei-o semidestruído, jogado no chão. Tinha levado uma surra, certamente. Era um dia em que minhas costas doíam inexplicavelmente e meus braços estavam com a musculatura latejante.

Tenho dormido sempre com a janela do quarto descoberta. Olho para o céu chumbo da noite recém-surgida. Repentinamente acordo e é como se um bafo quente houvesse embaçado o vidro. Mas é só impressão. Os olhos sem óculos visualizam as luzes amarelas opacas da rua que dão impressão de pintura de Van Gogh. Há frio que parece de quarto que ficou a noite inteira de janela aberta.

Nessas horas observo a roupa dobrada sobre o cabideiro. Sempre em uma posição diferente. Sempre esperando.

Junho 1, 2009

A poeira como rastro

Hoje seria o dia de comprar as passagens para meus dez dias de férias que faltam para debulhar a safra 2007-2008. Aí um Airbus desaparece dos radares e não chega a lugar nenhum, como se tragado fosse pelo Triângulo de Cabo Verde, ou maldição que valha.

O mecânico vivido por Morgan Freeman fala ao bilionário feito por Jack Nicholson que uma pesquisa apontou baixíssima preferência para a opção “saber que dia vai morrer” entre possíveis previsões futurísticas.

Desabar de 12 mil metros de altura deve ser a experiência mais tenebrosa do mundo. Já passou por uma turbulência daquelas em que o avião cai cem metros em dois segundos?

Eu, já.

Em Antes de Partir, Nicholson e Freeman estão condenados à morte por câncer, e decidem viajar e fazer coisas que nunca haviam feito na vida. Giram o mundo, de avião. Saltando de paraquedas, o mecânico, um homem cheio de fé e às portas da morte, hesita em pular do avião. O bilionário, ao contrário, niilista e desapaixonado e às portas da morte, deixa para puxar a cordinha no último momento.

Era 1999, sobre o Caribe, em direção a Nova York, e lá marcava o painel da Continental. Cem metros em segundos. Imaginar essa queda CONTINUANDO por mais alguns segundos, até o fim, é impossível. Dizer que um inevitável desmaio facilitaria tudo é balela porque subestima a adrenalina. Mais certo é supor haver a consciência de que se vai morrer.

Uma cabeça tem consciência de que é uma cabeça.

Tenho consciência de que meu maior fetiche on the road é pegar um carro e ir parando em hoteizinhos de beira de estrada para dormir. Sem destino, sem escalas, sem taxa de embarque, sem plano de voo. Só poeira.

A navalha corta a cabeça de Danton e ela fica ali, vendo jorrar sangue do corpo que ficou para trás, e assim tem a consciência de que é uma cabeça, pelo menos por alguns segundos. Seus olhos estão apavorados, registrando dor ou tensamente curiosos?

Eles matam, nós limpamos.

Só a poeira como rastro.

Duvida?

Pergunte à cabeça.

Pergunte ao pó.

Maio 26, 2009

Marrocos

Aqui tudo termina.

Foi em uma noite inexpressiva que ela ressurgiu. No meio de um clipe do Manu Chao e do Yeah Yeah Yeahs, ouvi a melodia marroquina. Não parecia estranha, não era nada estranha, tinha passado por audições diárias por anos e anos. Na hora, tudo voltou à cabeça e aos ouvidos: os cheiros dos dias, os sons da época, as cores das ruas. Recuperei tudo que havia sentido naqueles anos e não entendi o porquê de tê-la odiado. Talvez tenha sido para tirá-la do interior dos ouvidos, onde construíra uma parede à prova dos demais sons. Esmaguei os ressentimentos e sorri. Havia ficado aquela doce dorzinha, somente isso, de ter esquecido uma bela letra que se sabia de cor.

Ouvi tantas músicas naqueles anos que as do passado sumiram. Morreram no limbo. Como se fosse a troca do vinil pelo CD. Mais adiante vai existir um CD que terá dezenas de vezes mais capacidade de armazenamento do que um DVD atual. É o Renascimento às avessas, com as gordinhas cada vez mais magras.

Odeio essa música, essa música que eu adorava porque seus acordes eram diferentes dos outros. A música que dura para sempre não existe, a não ser que seja tocada no inferno, ainda que digam haver aquela que nunca deixa de ser escutada. Acho que. no fim, dá para gravar um CD completo com todas que precisam viver para sempre, e talvez falte espaço até para aquelas que nunca se ouviu e que, se tivesse sido assim, entrariam no disco.

Havia aquela coisa de inconscientemente criar um ambiente inóspito. Deletar MP3, arranhar discos, ouvir rádio, assistir à MTV, tudo menos voltar a apreciar a música, aquela música. Ela não era ruim, a banda compôs a música de sua vida. Ainda assim, ela foi causando enjôo. Deixou de ser apertado o play. Se não fosse um mero programa de computador ou uma faixazinha de CD, mofaria ou criaria teias de aranha. “Mero programa de coputador”? “Faixazinha de CD”? Quem diria. Não teria sequer pensado assim quando baixou o MP3. MP3 que ressaltava o certo accent que tinha o inglês da cantora.

A estava ouvindo pela terceira vez naquele dia. Uma de manhã, uma à tade, uma à noite. Ainda pegava alguns acordes diferentes, uns estalos do chipô, uma curva nos metais, um toque ainda não percebido da palheta na corda do violão. Mas ultimamente estava sendo difícil captar sons diferentes daqueles que a mente aguardava na decoreba, adiantando em segundos o que os músicos tocavam, causando, vez por outra, sorrisos. O sotaque marroquino aos poucos, porém, e isso era o que ainda se mantinha inconsciente, tinha virado nada mais do que um jeito diferente de cantar em inglês.

A estava ouvindo pela décima vez naquele dia. A música tinha se tornado parte do corpo, material necessário para a vida, como a água diária, o trabalho que sustenta, a comida. E ainda fazia rir, mesmo com as repetições, que, apesar de serem repetições, tinham sempre um estalinho novo nos pratos de ataque, uma vibração atônica nas cordas do baixo, um jeito diferente de dizer uma palavra pela vocalista. Aquele sotaque marroquino que era uma delícia.

A estava ouvindo pela vigésima vez naquela noite. Ligava o computador só para ouvir a música. Ficava sentado na cadeira de olhos fechados, escutando, imaginando como seriam os integrantes da banda, que tiques a vocalista teria, que caras faria o guitarrista, que manias teria o baterista, enfim, como seria essa banda marroquina. Cada milésimo da música era uma novidade, o jeito de pronunciar “the little joy”, naquela frase travada de um inglês tosco tão atraente. As horas passavam assim, como nuvens de perfume.

Ouviu a música e enfim definiu que gostava daquilo. Era diferente, tinha o que sempre gostou, o jeito alternativo, inglesão, mas agora estava aquela coisa indescritível e surpreendente que era mais do que uma voz sensual marroquina, ou seja lá de que diabos de lugar era aquilo, hahahaha! E as batidas no bumbo? O que era aquilo? O peso e a melodia juntos como se fossem uma parede sonora, quase palpável. Risos, era nisso que resultavam as análises absurdas daquele caos sonoro.

Não, não e não. Não podia gostar daquilo. Era tão estranho, diferente de tudo. Ouviu uma vez e chega. Só que ficou tudo martelando na cabeça. Em casa, cantava a melodia. Errado, mas aos poucos formando uma interpretação própria que foi tornando a música atraente. E se… e se… tivesse mesmo uma distorçãozinha aqui? E se… e se… a vocalista dissesse “joy” de um jeito menos afetado? Afinal, de onde era essa gente? No Google, achou uma referência perdida. Uma só, assim, como se aquela banda tivesse sido montada só para ele.

Eram do Marrocos.

Aqui tudo começa.

Maio 22, 2009

Cúmplice do autor

Um dia cheguei nos comentários deste blog e apaguei todos os meus. Eram os piores. Havia alguns xingamentos contra mim, um ou outro elogio da MINHA MÃE, comentários sobre posts e sobre comentários. Mas os tenebrosos eram os meus.

O escritor Luiz Antonio de Assis Brasil diz que os contos devem ser revisados uns dias depois e os romances, meses após sua escritura. Os posts passam por uma revisão no minuto seguinte à publicação — isso não foi o Assis Brasil quem falou.

E os comentários?

Olhei para aquelas observações feitas pelo próprio autor deste blog e detestei-as e detestei-o. Por que escrevia essas coisas idiotas, infantis, a respeito dos comentários que colocavam no seu blog? Os textos postados até pareciam razoavelmente adultos — serei cúmplice do autor, que é o que fazemos quando percebemos que ele teve certa intenção, não conseguiu atingi-la, mas, enfim, tentou, se esforçou —, só que, quando partia para a linguagem coloquial, a conversa com os leitores, se dava muito mal.

Por isso, creio, retirou os comentários que fez. Penso ter feito bem. Era lamentável ver aqueles “hehehe” e pontos de exclamação. Pontos de exclamação precisam ser banidos. Da próxima vez, porém, que alguém comentar, e esse comentário contiver uma pergunta, como ele fará? Responderá na forma de post?

TALVES ele resolva voltar a comentar, porque eu sei que de vez em quando ele tem vontade de responder a algumas coisas, MAIS acho que não deve fazer isso POR QUE pode se arrepender de novo. Por isso, sei que se ele não me responde não é por falta de EDUCASSÃO, MAIS POR QUE DÚVIDA que o seu COMENTARIO SEJE bom. FORSSA AÍÍÍÍÍ!!!!!! TUDIBOM!!!!!

Beijos.

ABRASSO.

Maio 14, 2009

Sumiu como somem os acordes

Nem bem Jonathan Noel havia deparado com uma pomba ao abrir a porta de seu apartamento para sair pela manhã, dei-me de frente com um grilo negro de patas ágeis ao chegar em casa à noite. Às vezes o cotidiano mostra seus desafios de escolhas, como fechar a janela e evitar a entrada de bichos ou deixar aberta para que não crie mofo na umidade.

Duas vezes já apareceram morcegos. Um morreu ao voar contra o ventilador de teto e ser praticamente decapitado e descoberto por um eu ressacado na manhã seguinte. O outro estava molengo, meio doente, acabou catado no box do banheiro por um amigo.

Escolhas menos importantes essas do cotidiano do que aquela feita por outro Noel ontem à noite. O set list do Oasis estava capenga, faltaram músicas de Standing in the Shoulder of Giants, que, não sei por que, é vilipendiado por fãs e crítica.

Jonathan decidiu não voltar para casa porque sua fobia acerca da pomba era tenebrosa demais. Ver a merda do bicho espalhada pelo corredor do prédio, encarar a profundidade dos olhos da ave, essas eram coisas que seu transtorno obsessivo-compulsivo não permitiam.

Eu volto para casa sempre, até a pé, em busca de um táxi em meio à multidão de fãs dos britânicos, comendo um churrasquinho no caminho. Volto e sempre lavo as mãos ao chegar. Não que tenha TOC, já tive, deve restar um pouco, talvez, só que nada é melhor do que estar em casa sem vestígios da rua. Eu não sou como Jonathan, juro.

Pois Jonathan tem na sua mente uma cena marcante. A indescritível visão de um mendigo cagando um jato de merda líquida em uma rua de Paris, em pleno dia, à vista de todos, precariamente escondido entre dois carros estacionados. Para Jonathan, a miséria nem é dormir no papelão, comer o que lhe é dado, pedir esmolas. É a impossibilidade de ter privacidade no momento de cagar.

Caminhei na rua e não encontrei ninguém no trajeto até um táxi na José de Alencar. Nem me passou pela cabeça dar de cara com o usuário de crack que volta e meia acho pelas ruas. Ele iria me cumprimentar, como sempre, com suas mãos ásperas e sujas.

Cheguei em frente ao prédio, limpei os pés no tapete da porta de entrada. No elevador, mais umas passadas no tapete. Em frente à porta do apartamento, de novo.

E lá está ele, o grilo negro. Não há o pânico de Jonathan diante da pomba, seu suor frio, sua sensação de que terá um ataque do coração. Há sono, cansaço e consciência de que poucas horas serão dormidas.

Tento matar o bicho e ele escapa. Vai para debaixo da cama. Me abaixo e nada vejo. Banho, escovar os dentes e nova verificação. Sumiu. O sono é tamanho que não é possível ficar catando esse inseto pela madrugada. Durmo sem pensar em Kafka. Não sonharia ter me transformado em grilo, ou barata, ou seja lá o que for, como Gregor Samsa.

O público cantou várias músicas. Noel tocou sozinho Don’t Look Back in Anger e senti arrepios com ela e com Falling Down. Enfiei o pé no meu tênis Coverse pela manhã e, sonolento, senti que havia algo lá dentro. Tirei e lá estava o bicho negro, escondido. Não me arrepiei, mas joguei o tênis longe. Ele caiu e o animal correu pelo corredor até a sala. Tentei golpeá-lo com um chinelo, sem sucesso.

Sumiu como somem os acordes em uma noite de ouvidos duros.

— Nike is shit — disse Liam Gallagher em um show em Buenos Aires. Apontou para o seu casaco Adidas, como se dissesse “esse aqui é melhor”.

Em Porto Alegre, Liam usava uma camiseta da Seleção Brasileira. Marca Nike.

No céu do amanhecer de hoje parecia haver uma supernova cor champanhe.

Não verei o céu no amanhecer de amanhã porque estará chovendo.

Vou olhar para o Converse e talvez calce o Adidas.