Julho 25, 2008

A cura

Pessoas que pedem como Robert Neville pediu: “Parem, eu tenho a cura”. Mas não são ouvidas. O sol brilhou atrás de uma criança e fez sombra sobre mim, refletindo tudo em um vidro grande. Vi nos fios escuros entre os raios de sol que passavam por uma árvore à beira do lago os mortos-vivos que atacavam Neville, sem dar-lhe ouvidos, sem querer a cura. Isso cheira a espírito adolescente, que senti em 1994, e hoje é 2008. E hoje minha idade é maior do que a de Kurt Cobain. E o tamanho da criança já fazia sombra suficiente para encobrir o sol.

Tive o desejo de entrar naquele lugar úmido, sujo e escuro para enfrentar os mortos-vivos. (Mas só se eles não forem fortes nem rápidos nem espertos.) E depois pegar o carro com pessoas que não conheço para conversar. (Mas só se elas falarem primeiro.)

Alguém te pede coisas como se fosse Robert Neville?

Me joguei contra o vidro. Uma parede transparente que impede a propagação do som. Só se vê as bocas mexendo e o barulho duro do choque do ombro putrefato contra o vidro. Parece difícil ser um morto-vivo jogando-se contra um vidro ultra-resistente. Sem ouvir nunca nada que a pessoa do outro lado tem a dizer. Sabendo que vai conseguir quebrá-lo em algum momento.

Na verdade, isso não é difícil.

“Pare, eu tenho a cura.”

Julho 21, 2008

Paralelos

Na Terra Ativa, chego ao trabalho no horário em que falta duas horas para terminar o expediente na Terra Paralela. Nesse meio tempo, os dois mundos se confundem. Paguei em janeiro a conta telefônica na Terra Ativa e na Terra Paralela. A telefônica percebeu e descontou o valor duplicado no boleto de julho. De nada adiantou porque deixei de pagar a de junho, já que a conta foi para a Terra Paralela, e não para a Ativa. Comprei uma cadeira de escritório e cuecas. Cheguei em casa somente com a cadeira. As cuecas ficaram na Terra Paralela. Gastei tão pouca luz que a empresa me deu de presente duas lâmpadas econômicas. Era só retirar no endereço especificado na carta. Foram retiradas na Terra Paralela. Fiquei de ir na despedida de uma colega. Fiquei de ir também na chegada de uma pessoa a Porto Alegre. Enquanto um partia e o outro chegava na Terra Paralela, fui na esquina jogar sinuca na Terra Ativa.

Lothar e Mandrake depararam com um espelho no qual suas imagens eram independentes. Ao contrário do mágico e de seu companheiro, Ekardnam e Rahtol eram vilões.

Não posso conter a pressão arrasadora de estar entre dois mundos com a ajuda de algum tipo de mágico como Mandrake, muito menos como Ekardnam. O lado do espelho de Ekardnam é tão vil e traiçoeiro quanto a Terra Paralela, onde não se pode confiar na Liga da Justiça, lá chamada de Sindicato do Crime da Amérika.

A Europa foi descoberta por Cristóvão Colombo. A Inglaterra é que ganhou independência dos Estados Unidos. O presidente John Wilkes Booth foi assassinado pelo ator Abraham Lincoln. A bandeira dos Estados Unidos tem o quadrado vermelho, com listras pretas e azuis alternadas.

No mundo real, os super-heróis só existem nas histórias em quadrinhos. Isso até aparecer Ultraa. Ele destruiu o conceito de mundo real. M. Night Shyamalan colocou na tela como são os super-heróis no mundo real. Eles seriam assim. Ou são assim. Eles não sabem que são super-heróis, assim como os mortos não sabem que estão mortos.

Em 2001 foi descoberto que havia uma dimensão parecida com a Terra Paralela. Seu nome é Universo de Antimatéria de Qward, e lá Alexander Luthor não é casado com a versão de Lois Lane local, pois essa Lois Lane é a vilã conhecida como Super-Mulher, que faz parte do grupo conhecido como Sindicato do Crime da Amérika, e ele não está sozinho porque existe uma grupo de heróis chamado Justiça Subterrânea, contraparte de antimatéria da Sociedade Secreta dos Supervilões.

A série do Superboy começa com uma música que parece Muse.

Não sei se é.

Vou olhar no espelho. Lá, talvez seja.

Julho 14, 2008

Elevador

No elevador, com as compras penduradas em sacos nas duas mãos, pensei que ele poderia desabar. Na hora, planejei subir no galão de água mineral e espalhar as coisas pelo chão para amortecer a força com que eu seria arremessado de encontro ao piso. Haveria tempo para armar o cenário? Procurei na internet. Não descobri página alguma para explicar o que fazer quando se está dentro de um elevador em queda. Havia na rede orientações em caso de terremoto, tempestade, furacão. Por sinal, todos sugeriam que não se usasse o elevador durante os fenômenos.

Buscas infrutíferas que ocorrem na web. É como quem chegou até aqui caçando doenças ou escatologias, como esses internautas (sem correções de português):

cagando e mijando
ferro na uretra
testos de despedidas para quem morreu
feridas formando um triangulo
mensagem de despedida pra alguem q morre
bola na gengiva

Dizem que os termos pelos quais o autor dos textos é buscado refletem a sua personalidade.

O espelho evita o tédio do sobe-e-desce. Sem espelho, sem janela, sem ninguém, só a pessoa, a luz, o som, a caixa de ferro subindo e descendo, a tendência é de que ela tente algum tipo de depredação. Ninguém suporta a claustrofobia, a dependência de um mecanismo que uma hora pode falhar e esmagar ossos e carne em um poço escuro. Pior ainda, ninguém suporta ficar ali sem companhia, ainda que seja a sua própria presença refletida em um espelho.

Julho 8, 2008

Dias e dias do apodrecer

Meu gás não termina nunca. É estranho. Comprei dois botijões faz quase um ano. Um pro fogão, outro pro banho. O do fogão quase nunca é usado. O do banho, é. Todos os dias. Cada banho leva ao mesmo pensamento. Será que é hoje? Uma hora vou ter de sair todo molhado e trocar o do chuveiro pelo do fogão. Pode ser que ocorra no dia mais frio do ano. Pode ser que dure até a primavera. É uma espera diária pelo fim.

Quase não gasto energia. Por isso, ganhei um presente da CEEE. Devo ir a um escritório deles trocar duas lâmpadas incandescentes por essas que custam mais e consomem menos luz. Querem me incentivar a continuar com mínimo consumo, resultado invariável mesmo que eu abra todos os dias o refrigerador e mantenha a porta um tempo escancarada enquanto olho a bergamota apodrecendo. Cada dia mais preta. Mais murcha. Outra vez era uma cebola. Ela ficou uns seis meses aberta. Foi se autodestruindo até eu resolver tocá-la no lixo. O tempo passa e acostuma-se ao apodrecimento se ele é acompanhando diariamente. Fica-se insensível em relação ao cheiro, à aparência, à proximidade do descarte.

Já o gás, quando acabar, assim, inesperadamente, terei um surto de emoção. No caso, raiva.

Sairei praguejando como nunca saí de um banho quente em uma madrugada fria de inverno.

Ou em uma noite amena de primavera, quando estarão de volta às árvores as folhas que caíram no outono.

Julho 2, 2008

A gigantesca expansão do universo

Essa é uma notícia que ninguém queria receber, mas infelizmente é isso, perdemos o tio Biguá. O velório será hoje, 01/07, a partir das 19:00hs no cemitério São Miguel e Almas. Amanhã o corpo seguirá para Caxias do Sul, onde será cremado.

Comunidade no Orkut da Escola Estadual de 1º Grau Jardim Lindóia.

Passaram mais de 20 anos e houve quem telefonasse avisando, houve quem escrevesse uma nota, houve quem reservasse uma capela, houve quem marcasse a cremação. Fui o homem que não estava lá para nada disso. Às vezes os acontecimentos suspendem as coisas. Elas não baixam como o pó que se acumula sobre meu criado-mudo. A matéria se afasta. O universo se expande. Estou feliz por ter te conhecido, mesmo que eu saiba agora que você também se vai, e eu sei que se vai, um dia. De uma só vez ou aos poucos. Como a matéria que compõe todos os corpos. Como a gigantesca expansão que separa a todos nós.

Julho 1, 2008

O silêncio da esp

Entrei no refeitório de cabeça baixa. Me servi de cabeça baixa. Sentei de cabeça baixa. Levantei uma vez a cabeça e vi conhecidos. Fiz sinal a um, fiz sinal a outro. Eles estavam certamente distantes, mas poderiam estar perto, poderiam estar à minha frente. Eles poderiam estar ao meu lado, eles poderiam estar falando comigo, eles poderiam estar rindo comigo ou contando confidências ou fazendo alguma fofoca.

Sonhei que era o preferido para alguma coisa em algum tempo, em algum dia. O regalo, no entanto, era somente uma amaciada para o que estava por vir. Uma má notícia, um tipo de banimento contra a minha vontade. À parte do mundo, procuraria refúgio com quem é bom estar junto. O sonho sempre acaba antes de encontrá-la.

Algo tem me cravado do lado, aqui abaixo, ali pra cima, pegando órgãos vitais, serrando veias a esmo e pedaços de carne sem gordura. Dos lados há só paredes brancas, para as quais fiz sinal a uma, fiz sinal a outra. Então pens

Tocou o telefone.

O vazio se desfez momentaneamente.

É como jogar The Sims. A energia renovada logo vai diminuindo, dimin

Tocou o telefone outra vez.

Marcar coisas para adiante é um meio de deixar o seu eu precavido da solidão futura. Costumo fazer isso agora no ontem para preservar a sanidade social de amanhã. E assim dou um sinal a um, dou um sinal a outro.

Mas no fim o telefone vai para o gancho. E fica o silêncio.

O silêncio da espera.

(Estou sozinho em casa e vou sair. Fecho a porta sentindo um arrepio, as orelhas se voltando como as de um cão perseguido. Fecho a porta o mais rápido que posso. Assim que largo a porta, algo, ou alguém, bate com toda força nela, diversas vezes seguidas. Pelo lado de dentro.)

Junho 24, 2008

Depois de ficar esnucado

Na primeira tacada eu mal tive força para dispersar as bolas que estavam juntas formando um triângulo sobre a bela mesa de feltro verde. Uma hora e meia depois, a tacada foi certeira e a bola oito entrou na caçapa do canto esquerdo. Venci por quatro a dois.

Eu nada tinha para reclamar no momento quando passava pela frente do bar que tinha uma mesa de sinuca velhota em um canto, uma TV em alto volume com o Jornal Nacional na parede e diversos caras velhacos e velhotes sentados em cadeiras descombinantes. Por que, então, senti como se estivesse perdendo alguma coisa? Supus ter andado pouco pelas ruas ultimamente.

Pensei no pesadelo. Aquele de me imaginar velho, sozinho e bêbado em um bar. Tomando em um copinho de cachaça e sendo olhado por quem tivesse pesadelos de um dia virar um velho, sozinho e bêbado em um bar. A imagem na rua não condizia com o pesadelo. Os velhos estavam bem e não se importaram que eu os olhasse, na ida e na volta, por poucos segundos.

Deixei o bar para trás e tive uma leve saudade do pessimismo, do alento de nada ter a perder, dos longos dias inúteis, da falta de fome e da sede insaciável, da música tocada incessante e repetitiva marcando uma época em que dormia no chão duro dentro de um escritório em que nada acontecia para mim, a não ser o envelhecimento.

Eu mal tinha força para dispersar as bolas que estavam juntas formando um triângulo. Porém uma hora o cansaço passou. E em determinado momento houve uma tacada certeira e a bola oito entrou na caçapa. No canto esquerdo. Os velhos riram e comemoraram. William Bonner falava na TV. Eu sorri para eles dentro daqueles segundos em que nossas vidas se cruzaram e segui meu caminho.

Junho 19, 2008

Gosto de nervo na boca

O último naco de carne do espetinho era recheado com um nervo horroroso, com gosto de morte bovina velha, mas eu não podia cuspir, tinha muita gente em volta e o lixo estava transbordando. Engoli com ânsia. Na outra mão ainda havia o espetinho de queijo.

Eu conversava com a Bete no jornal sobre o melhor jantar para a noite do solstício, a mais longa do ano. Ela decidiu: queijos e vinhos. Emental, gorgonzola e gouda, um cabernet sauvignon ou um tannat.

Uma garota espalhafatosa com sua filha olhou para a minha comida e perguntou ao assador o que era aquilo. “Queijo”, disse ele. Ela ficou animada e inquiriu sobre o preço. Dois reais. Então não, era muito caro. Preferiu o de frango, que era a metade do valor. 

Lauro Quadros discutia hoje se as novelas estão em crise ou não. O último capítulo de Duas Caras teve a pior audiência para um episódio derradeiro em toda a história global. O primeiro de A Favorita também fracassou.

A novela passava acima de nossas cabeças. A jovem assistiu por alguns segundos e me dirigiu a palavra: “Essa novela tá cada dia mais louca”. Sorri. Joguei o palito no lixo.

Porto Alegre é a sexta cidade brasileira no ranking dos municípios que mais geraram empregos nos primeiros meses de 2008. Em maio se chegou a 30 milhões de pessoas com carteira assinada no país. A média dos proventos pagos a aposentados saltou para mais de 500 reais.

A filha da menina estava às soltas pela rua e se aproximou do vendedor de cachorro-quente. O cara viu que a mãe dela não tinha dinheiro e deu uma salsicha para a criança. As duas foram embora de mãos dadas.

Sempre preferi a ficção, mas não a das novelas.

Junho 16, 2008

O altruísmo redentor é ruminante (fale bem rápido que passa)

Estava no meio da fúria quando resolvi que não. Poderia ter destruído uma pessoa. Preferi esconder toda a merda que ela havia feito. Passou o ímpeto e a dúvida sobre que atitude tomar e veio o sentimento de onipotência, de altruísmo. A sensação de fazer o bem foi… continuo depois.

(Estava deixando o supermercado com duas sacolas, uma em cada mão. O mendigo se aproximou. “Deixa que eu carrego.” De novo a fúria, o sangue subindo à cabeça. “Não.” “Então dá vinte centavos”, insistiu, com veemência. “Não tenho”, falei, alto, a cabeça latejando, imaginando um soco, mas seria um soco por baixo, não exatamente um soco comum, ficaria com a mão fechada em cima do punho, junto ao dedão, socando o queixo por baixo como se fosse uma jogada de vôlei. Veria o corpo magro voar, os olhos fora de órbita, o sangue da língua mordida empapando a gola do casaco puído, o corpo caindo como galhos de árvore no chão, as pessoas chegando, minha mão latejando. Ou não, porque outro golpe do meu arsenal seria ainda mais violento: “Então dá vinte centavos”. “Não, semovente.” “Não o quê?” “Não, semovente. Não sabe o que é semovente? Vai estudar, então.” Talvez esse fosse mais duro, mesmo.)

…voltando ao assunto. A sensação de fazer o bem foi redentora.

Junho 10, 2008

See you at the bitter end

No meio da explosão, da fumaça, dos pedaços de vidro voando, a senhora japonesa virou seu rosto e viu as pessoas fugindo do bar na Avenida Independência. Estava sozinha e ferida. Um homem, também ferido e que havia saído do local, voltou para resgatá-la. No meio do trânsito caótico de Tóquio, um japonês enviou seu carro sobre as pessoas. Descontente ainda, desceu para esfaquear seus alvos. Morreram sete, diversos ficaram feridos. Olhando em torno, escorado em um muro, o sangue das vítimas no rosto, ele sentiu a solidão de ter tentado comunicar o que faria pela internet e ninguém ter dado bola. Morreram nove nas enchentes do Wisconsin, Estado distante de New Orleans, arrasada pelo furacão Katrina há anos. Há pouco faltou luz no bairro e fiquei sozinho no escuro, ouvindo a chuva e o vento. Soube depois que anunciaram um novo ciclone extratropical. No Planalto Central já não se fala em mensalão. Desvios de dinheiro público estão sendo apontados agora no Sul, onde a crise no governo se agravou com a divulgação da gravação de uma conversa entre o chefe da Casa Civil e o vice-governador. O amigo paulista estava feliz no fim de semana. Ele falou bem de Porto Alegre, há menos impessoalidade, quem sabe menos solidão. Disse que o trânsito aqui é bem melhor do que o de São Paulo.