LOCAL: MUSEU IBERÊ CAMARGO
— Crianças, vocês sabem por que não se pode tocar num quadro?
— Por que quebra?
— Por que estraga?
— Por que cai?
— Ééé… a nossa mão é molhada, vocês já perceberam? Ainda bem, né, porque senão iam ficar machucadas, iam rachar. Isso é bom para nós, mas, se tocar em um quadro, não é bom. Vocês sabem por quê?
— Porque quebra.
— Porque estraga.
— Porque cai.
— É porque os dedinhos molhados podem estragar a tinta.
— Aaaaaaaaahhh…
— Então, vocês não fiquem muito perto dos quadros, tá legal?
— Táááá…
— Também não pode mascar chiclete. Alguém aqui está mascando chiclete?
(Uma menininha de sete anos olha para a boca do repórter, em movimento frenético.)
— Ele tá mascando chiclete!
— Mana! É feio apontar!
— Haha! Eu vou te pedir para jogar fora o chiclete quando chegarmos lá em cima, ok?
— Ok.
— Tem uma lixeira lá.
— Tá bem.
— Oh, desculpa, a minha filha, ela…
— Nã, nã… tudo bem.
***
LOCAL: ZONA SUL
— Eu sou o último barbeiro do bairro.
— Putz.
— E mais antigo do que eu no comércio só tem a Casas Cafofo.
— Bah. Pois é, mas, então. Beleza, o motorista tá me esperando faz tempo, agora eu tenho que…
— Hum.
(Olhar fixo na mufa do repórter.)
— ?
— Teu cabelo tá horrível. Onde tu trabalha deixam, mas no meu tempo não podia.
— Pois é…
— Vem cá. Vou aparar teu cabelo.
— O motorista, sabe…
— Só aparar um pouco a suíça e a nuca.
— Ãhn… tá bem.
(Fundos da casa do barbeiro, onde ele montou um salão após a aposentadoria.)
— Pode sentar.
— Tá.
— Então. Eu blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.
— Ei! Não corta aí em cima!
— Ah, é. Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá. Pronto.
— Bah. Valeu.
— Quando quiser fazer todo o cabelo, volta aqui.
— Certo.
***
LOCAL: REDAÇÃO
— Olá. Olha só, eu gostaria de falar com o Fulano.
— Gostaria de falar com o Fulano direto?
— Sim…
— Com a pessoa?
— Ãh… sim… (desculpe por eu ter nascido).
***
LOCAL: CENTRO
— Oi, eu combinei com o pessoal da FGHIJ de entrevistar a gurizada que está ensaiando aí.
— Ah. Só um pouco que vou chamar o TPM.
— Tá bem.
(Passam vários minutos.)
— Olá. Sou o TPM.
— Oi. Sou o André, da ZH. Eu combinei com o pessoal…
— Não será possível fazer a entrevista hoje porque a chefona não está.
— Ãh… como?
— A chefona estará só na semana que vem. Podes marcar para a semana que vem, que aí ela pode ser entrevistada.
— Ãh. Olha só, eu marquei com agurizada e o maestro. Eu vou entrevistar a gurizada e o maestro. Eu NÃO VOU ENTREVISTAR A CHEFONA.
— Só semana que vem.
— Esse é um projeto da FGHIJ.
— Aqui é o MNOP.
— A FGHIJ estava sem um lugar para ensaiar.
— Aqui é o MNOP.
— Eles só estão aqui porque não tinham onde ensaiar.
— Aqui é o MNOP.
— Vocês só estão cedendo o lugar. O projeto é do…
— Aqui é o MNOP.
— Haha! Tá bem. Vou embora.
— Tá bem. A saída é por ali.
FINAL DA HISTÓRIA: A ENTREVISTA FOI FEITA NA PRAÇA DA MATRIZ
***
LOCAL: REDAÇÃO
— Bom dia. Pode me passar para a assessoria de imprensa?
— Hã. A gente não tem.
— Com quem eu posso falar sobre os projetos da empresa em Porto Alegre?
— Ãh.
— Algum gerente?
— Ele tá no telefne. Pode ligar depois?
— Muito tempo?
— Uns 20 minutos.
1,2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20.
— Oi, sou eu de novo. O gerente está?
— Está viajando.
— Viajando? Ele não estava aí?
— Não…
— Olha só, minha editora disse que quem faz assessoria para vocês é a Fulana da Silva.
— Fulana? Peraí.
— …
— Olha só…
— ?
— Fulana só tem uma aqui, e ela é do xerox.
(Faz sentido. A menina fazia a taxação de manhã, aí viram que ela ocupava o turno fazendo os xerox. Aí mantiveram ela como assessora de imprensa de manhã e mulher que copia à tarde. Faz sentido.)
— Bom, de qualquer forma tenho o ramal da assessoria. É 123, Pode me passar?
— Claro.
— Obrigado.
Tutututututututututu…
(Nova ligação.)
— Alô.
— Sim?
— Sou eu. De novo.
— Oi.
— Olha só. Falei com a Fulana pelo celular. Ela não trabalha mais aí. Ela me disse que eu devia falar com o Beltrano, do marketing.
— Ah, tá. Vou passar.
…
— Alô.
— Bom dia. Eu queria falar com o Beltrano.
— Hum. Agora ele não está. Só mais tarde.
— Muito tarde?
— Mais pro fim da tarde.
— Tá bem.
…
…
…
— Alô.
— Boa tarde. Eu fiquei de ligar para o Beltrano agora à tarde…
— Ah… o Beltrano. A gente também está atrás dele.
THE END
***
LOCAL: ZONA SUL
— Olha só isso aqui. Isso aqui tá um lixo. Botaí na matéria ó, bota isso aqui. Mostra assim, ó, tira a foto daqui.
— Ah, tá.
— E aqui, olha só, isso era para ser um negócio legal, mas olha que lixo. Tira uma foto daqui e mostra assim.
— Aham.
— Esse lugar aqui era para ser turístico. Mas olha só que lixo. Faz uma foto daqui, ó. Mostra, assim, o Guaíba. Pega mais dali, ó, que fica melhor.
— Sim.
— Aqui, ó, essa ponte. Se um carro bate na mureta, cai lá pra baixo.Isso vai dar morte. Tira uma foto dali, ali dá pra ver como é fundo.
— …
— Não, não. Melhor fazer a foto do poste daqui, ó. Não vai aparecer direito, assim.



